Favela é Co:

colaborar, coexistir, cocriar

É o irmão que mora num quarto da casa da irmã. O filho que constrói um puxadinho em cima da casa dos pais. E num abrir e piscar de olhos, famílias inteiras estão compartilhando o mesmo espaço.

A construção desses “puxadinhos” costuma se dar pela força de várias mãos. Chama o vizinho, traz a cerveja, organiza um churrasco, coloca muito Bebeto no som, vem com o concreto, os primeiros tijolos começam a subir e com muita ginga a extensão da casa vira realidade. O co-living tem sido uma tendência, mas na favela todas as relações são colaborativas. Desde sempre.

“Na vivência da maioria das pessoas que moram nas favelas, criar junto é uma realidade muito forte. A gente desenvolve várias habilidades por conta da necessidade de colocar a mão na massa. Nossa criatividade vem da resiliência”.

May Ximenes é jornalista, educadora e aspirante a cineasta. Moradora do Engenho da Rainha – uma comunidade localizada na Zona Norte do Rio -, ela circula por todas as zonas da cidade desde os seus 16 anos. E foi seu pai, Rosivaldo Afonso, que sempre incentivou ela a se apropriar da cidade e dos espaços que a mesma oferece. Esses trânsitos trouxeram conexões com pessoas, ideias e saberes muito diversos. E as experiências do Engenho, junto com as desses novos espaços, ampliaram suas posições e personalidade.

“É importante a gente entender a favela enquanto cidade. Quem mora nesses lugares costuma ter uma dimensão da mobilidade reduzida ao trajeto trabalho-casa-trabalho. Por todas as tensões geográficas e sociais, é claro. Mas não pode ser assim. A praia, o asfalto, a cidade também é nossa. Ou deveria ser.”

MOVIMENTO, INQUIETAÇÃO E PODER

A curiosidade e a flexibilidade são características de um fazedor. O fazedor pode nunca ter realizado determinado fazer, mas ele não se assusta quando um novo desafio lhe é proposto. Nesse sentido, ser desafiado costuma ser uma estímulo a mais para realizar. Ele acredita que pode fazer tudo, e de tanto pensar assim, em um dado momento eles descobrem que podem mesmo.

“Na infância fiz ballet, jazz, teatro, vendi limonada no portão de casa. Minha inquietude e dinamismo me fazem aberta para o novo. Consequentemente, circular por várias áreas me possibilita adquirir conhecimentos e experiências diversas. Meu esquemão sempre foi doar energia para coisas que de certa forma também me reenergizam”.

JORNALISTA & ROTEIRISTA & FOTÓGRAFA & SOCIAL MEDIA & (…)

Fazedores estão sempre envolvidos em muitas atividades, e com isso eles vão hackeando ferramentas, agregando cada vez mais habilidades e desenvolvendo avatares para se colocarem em cada atividade que desenvolvem. Muitas vezes é difícil explicar o que eles fazem. Eles são sempre dinâmicos, não dá pra colocá-los numa caixinha.

“Eu costumo brincar que ‘eu estou’. ‘Estou jornalista’, ‘estou roteirista’. Amanhã posso não estar mais essas coisas. Ou posso estar outra coisas. Meu eu é múltiplo”.

Boca de Favela

O Boca de Favela, idealizado por May Ximenes, é uma página que apresenta narrativas sobre as favelas além dos clichês e dos estigmas sociais. O projeto fala das favelas como espaços diversificados, construídos por pessoas cheias de potências.

“Eu queria me ver e ver os que vem de onde eu vim representados enquanto seres plurais. Reconhecidos por todas as possibilidades de ser. E por todas as possibilidades que somos. O Boca de Favela nasce desse incômodo. Eu acredito que nós precisamos, cada vez mais, produzir as nossas próprias narrativas”.

Como não se faz nada nessa vida sozinho, a jornalista enfatiza que o projeto só se tornou possível através da parceria com Jeandson Moreno, designer, co-idealizador do projeto, amigo e parceiro de vida.

Em Junho de 2016 May e Jeandson abriram o Festival de Fotografia do Rio, no Centro de Artes Helio Oiticica, apresentando o trabalho do Boca de Favela. Era a primeira vez que eles falariam sobre o projeto para um público maior. Na época, o Boca tinha apenas dois meses de vida.

“Estávamos super nervosos. Não entendíamos a força do projeto ainda. O mais louco foi abrir um Festival de Fotografia feito exclusivamente com uma câmera powershot. Começamos o Boca sem estrutura nenhuma. Foi no tesão e na gambiarra mesmo”

O trabalho do Boca de Favela já foi reconhecido e fomentado por canais de comunicação nacionais e internacionais. Em 2017 o projeto irá circular por favelas de vários estados do Brasil.

Papo reto: de fazedora para quem faz

“Todos os dias muitos acontecimentos minam os nossos desejos, afetando nossa auto-estima e fazendo a gente duvidar que pode. Por isso eu acho importante a gente estar em rede. Rodeado de pessoas que acreditam em nós e podem ser o nosso gás nesses momentos. O lance é se blindar de axé, botar a cara e o bloco na rua. Porque sempre dá pra fazer!”

A casa vai brotar

Um espaço de trabalho colaborativo no coração do maior complexo de favelas do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão. May Ximenes, Thamyra Thâmara, Mayara Donário, Marcelo Magano, Patrick Sonata, Priscila Martinho Julio Mendes e Sabrina Martina -todos moradores de favelas de diferentes zonas da cidade-, estão desenvolvendo a Casa Brota – a primeira casa de Coworking do Alemão.

“Na favela aprendemos cedo que precisamos uns do outros e que somos mais potentes quando construímos juntos. A criatividade nesses espaços nasce da urgência de dar conta de uma ausência que é cotidiana. Não vejo lugar mais apropriado para uma casa de coworking”

A Casa Brota vai ser inaugurada e aberta ao público no dia 17 de Dezembro.

“Ser Lifeaholic é entender que a vida é passagem e, por isso, a gente precisa aproveitá-la somando o máximo de momentos e lembranças boas que a gente puder. Não dá pra perder tempo com o que não faz seu coração bater mais forte. Isso não tem nada a ver com viver num fantástico mundo, isso tem a ver com viver o que faz sentido no seu mundo”.
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