A gente raxa

mulheres que rompem barreiras

Essa matéria tem vozes femininas. Ao imaginar a leitura, pense nesse som.

Era uma vez a Jeanne Yépez. Ela estudava História de noite e trabalhava na Secretaria de Estado da Fazenda de dia. Sua rotina era bem fixa. Mas Jeanne, assim como muitos jovens dessa geração, passou por uma turbulência – depois do susto, a viagem continua ótima. Atualmente ela trabalha como produtora, hostess, caixa, bar, modelo, atriz-apresentadora-cantora-dançarina e o que mais for necessário.

“No meu décimo e último período da faculdade a vida deu uma reviravolta: perdi o emprego, o namoro e a moradia. Entendendo que a urgência é um timming incrível e que é em tempos de crise que crescemos, então virei a vida do avesso”

O avesso veio e ela começou a trabalhar fazendo uns bicos de hostess na Fosfobox – e a partir daí, começou a circular por toda a noite alternativa do Rio de Janeiro,  trabalhando e curtindo. Foi da 00 até o La Paz, de festas em coberturas de amigos na Lagoa até todo mundo nu numa nuvem móvel embaixo do MAM. Muitos porres depois e muitas amigas e amigos também, começou a fazer assistência de produção na festa Manie Dansante. Somado a isso, virou assistente de produção em shootings para o I Hate Flash, e mergulhou de vez nesse universo.

“Como não sou herdeira de nada, e não tenho carteira assinada, o buraco das finanças é mais embaixo… trabalhar virou meu segundo nome. Produzi bares para festas, as saudosas quartas abertas na Casa Nuvem, freelas de produção, fiz muitos caixas e continuei trabalhando como hostess.”

Ela acredita que o trabalho de hostess é que permitiu todo o resto, não só por causa dos diversos contatos, mas por ter feito ela desenvolver um modus operandi zen, um refinamento intuitivo.

“Se vocês imaginassem a quantidade de mentiras que as pessoas tentam fazer descer goela abaixo de quem trabalha na porta – é um jogo de cintura que acaba sendo indispensável no trabalho de produção”

Ao final desses 4 anos, virou sócia da Manie Dansante – em eventos grandes que vão desde picnic, piscina, até festa no barco. E no I Hate Flash, é produtora tanto de eventos quanto de shootings – e inclusive coordenou toda a equipe de vídeo no Lollapalooza 2015.

“Me vejo como alguém que tenta fazer a ponte entre as ideias e o mundo real, alguém que gosta do ambiente noturno, de música, de estados alterados de consciência (rs), de me comunicar, conectar pessoas que preciiiiiiiiisam se conhecer, mas gosto principalmente de GENTE.”

Nessa onda de fazer o que gosta, ela praticamente só trabalha com amigas e amigos. É aí que a RAXA entra. A RAXA é uma coletiva de mulheres que trabalham na noite carioca e que se uniram em busca de um de fortalecimento mútuo. O fortalecimento é dado pela força do encontro feminino, pelo ambiente de confidencialidade e confiabilidade, pelo fortalecimento psicológico, pelo lançamento de campanhas contra opressão feminina e pelas oficinas de trocas de saberes.

Em um primeiro momento, esse fortalecimento mútuo ocorre entre as mulheres que participam desse pequeno grupo. A ideia é que esse fortalecimento cresça e alcance mulheres de diversas partes, através da presença na internet, nas ruas e nos espaços de entretenimento. Além do fortalecimento, a RAXA quer incentivar uma mudança de comportamento e de ideia dentro da cena de entretenimento que, assim como todos setores da sociedade, oprime e desvaloriza a mulher.

“Essa paixão pelas pessoas me fez querer colocar um filtro ético sobre um trabalho que, apesar de super laborioso, é compreendido muitas vezes apenas como diversão ou entretenimento.”

RAXA estará presente no Festival #dáprafazer. Jeanne fez uma curadoria extensa, 100% feminina, que vai desde shows e festas até conversas sobre maternidade. A força da mulher, do feminismo, do apoio-mútuo, da diversidade e da solidariedade podem sim guiar as produções culturais e as estruturas de entretenimento.

“Muitas vezes por estar em ambientes descolados, nos quais algumas palavras circulam com mais frequência, a gente tem a falsa impressão de que alguns problemas são superados dentro da bolha, mas, além de isso ser uma ilusão, a graça é cruzar conhecimentos e vivências pra que a dignidade esteja em qualquer espaço.”

Além da própria dinâmica machista, Jeanne acredita que precisamos desconstruir também a experiência da bolha. E isso serve para várias lutas: circular mais e estabelecer pontes com zonas diferentes da cidade, ouvir as diferenças, perceber as nuances de cada contexto e dedicar energia para que diferentes realidades usufruam e compartilhem as melhorias – e não apenas quem está no front da luta.

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