A rua em roda

E os giros que o rap dá

Esse texto poderia ser rimado. Mas como tá escrito e não falado, segue sem versos, mas contagiado. Vai bem com essa música.

As ruas do Rio de Janeiro guardam muitas histórias que precisam ser reveladas e valorizadas. Nas pessoas –  mais precisamente na boca e nos ouvidos – que isso ganha corpo. O primeiro passeio da palavra pode não estar no papel, mas solto pelo mundo, em crescimento. Construir versos liberta a memória. E fazer isso com a fala, em roda, intensifica a sensação de “estamos juntos”.

Nas rodas de rima, muita coisa é colocada pra fora, no centro da ciranda. E seja em batalhas ou em saraus, o que realmente ganha espaço é a palavra – e as vozes. A periferia, que é constantemente silenciada, ganha palco. As margens, que vão sendo colocadas cada vez mais distantes do centro, entram no foco. Com o rap, o silêncio vira um flow vivo, cheio de opiniões, nuances e saídas.

Mais do que um jeito de dar ritmo ao texto, o rap é uma arma, um escudo, um alimento, um amigo. E no Rio de Janeiro, assim como em outras partes do globo, ele tem servido pra empoderar e fortalecer muita gente. Em solo carioca, as rodas de rima viraram Rodas Culturais, e foram absorvendo outras linguagens e manifestações artísticas. A articulação delas culminou na criação do CCRP – Circuito Carioca de Ritmo e Poesia.

O CCRP é uma rede independente de produção, pesquisa e inovação cultural que estruturou um conjunto de encontros que acontecem semanalmente em praças e espaços públicos de diversos bairros do Rio de Janeiro. Todas as zonas participam.

Djoser Botelho é um dos produtores por trás das Rodas Culturais: teias de artistas e trabalhadores independentes. Poetas, fotógrafos, MCs, músicos, grafiteiros, artistas plásticos, artistas circenses, atores, profissionais do audiovisual e esportistas urbanos se unem. Essas rodas dão sustentabilidade à cultura de rua, juntam diferentes classes e geram intercâmbio cultural. Todos estão convidados a interagir no palco mais vivo, verdadeiro e democrático existente: a RUA.

“Eu brinco que eu sou um realizador de projetos utópicos e megalomaníacos, rs. Na real, sempre fui um grande motivador de pessoas, consigo conectar muitas forças e realizar projetos com poucos recursos.”

Djoser, que já trabalha com a Rodas Culturais há 8 anos, percebeu o que rolava nos bastidores dessa cena fertilizada pelo Rap e sentiu que seria importante registrar tudo isso, falar mais profundamente sobre as Rodas, guardar as memórias de um momento tão importante para a cidade.

Com essa reflexão, criou o Papo de Roda, espaço real de troca que vai virar um Web Programa – novo desdobramento das Rodas Culturais. Grupos artísticos que cresceram dentro do movimento das rodas, organizadores, selos de rap e outros entusiastas vão descrever o que vem acontecendo nas ruas do Rio de janeiro nesses últimos 7 anos e como isso impacta a cena.

Além disso, Djoser tá promovendo a Batalha com o maior prêmio que a cidade já viu: 10 mil reais para o flow vitorioso. Tudo isso vai acontecer no Festival Rider #dáprafazer, um evento que valoriza a cena criativa e independente do RJ.

“Fomos doutrinados com um pensamento de colônia e não conseguimos dimensionar o nosso real tamanho. Isso causa um desânimo e uma sensação de que estamos sempre atrasados. Quero mostrar ao mundo o que realmente acontece nas ruas do Rio, pra aumentar a autoestima e claro, atrair investimentos pra cena.”

Hoje, Djoser se vê como um motivador dos movimentos culturais, mas ele vem lutando pra um dia virar investidor dessa cena. Apesar de acontecerem nas ruas e de serem gratuitas, as Rodas Culturais são frutos de muito trabalho, muito suor. Ele deseja que isso ganhe cada vez mais valor, para que as Rodas e os outros movimentos de cultura urbana possam atingir um público maior.

“Vivemos juntos nessa utopia de aquecer a cidade através da arte, da vivência e do entretenimento.”

E pra finalizar, alguns versos do Bk em “Filho do fim do mundo”, que estão ensolarando a cabeça e os ouvidos de Djoser:

Eu sou o sol, todos ao meu redor brilham

Eu sou o sol, todos ao meu redor criam

Eu sou o sol, todos ao meu redor vivem

Então vivam!

 

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