A terra é fértil

e a cidade cresce

Uma caixa de som maior do que você emite um grave profundo. Muito movimento ao redor mas tudo parece estar em câmera lenta. Agora vamos à história:

“Avalio todo lugar como potência. Se alguém diz ‘em tal lugar não tem nada’, é pra lá que eu vou.”

Era uma vez o Hanier. Ele passou no vestibular super concorrido para Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro mas trancou o curso pra ser Missionário no Nordeste. Lá, seu foco era a potencialização do solo e a agricultura familiar.

Mas ele percebeu que era no seu território que precisava cultivar as coisas. Voltou pro Rio de Janeiro: o solo podia ser um pedaço de cidade, as sementes podiam ser as ações das pessoas. Os frutos desde então não matam a fome, mas são muito nutritivos. O rolê dele é cultural.

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Hanier Ferrer é um só – mas já fez tanta coisa que parece ser um grupo. Sua agitação é criativa e artística, mas foi no viés altruísta que ele depositou mais energia. Quando mais novo, tocava instrumentos, fazia malabares e se expressava pra garantir um futuro. Com o tempo, virou um facilitador de muitas expressões – sua matéria-prima é a coletividade.

“A dedicação é necessária, junto com a construção de redes, porque articulação é o fundamento. Sem isso não adianta falar, trampar.”

No corpo, as articulações são responsáveis pela mobilidade. São elas que permitem dobras, fazendo a gente sair do lugar. Um articulador cultural tem uma função parecida: movimentar, movimentar, movimentar.

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“Todo lugar tá em constante transformação, são diversas micro-revoluções por minuto, basta a gente sempre atentar pro que não está visível. Vivo pra mudar, é isso que me movimenta.”

Visibilidade é uma palavra chave para Hanier, pois o que tá visível ganha força – e permite acesso. Talvez o primeiro passo de qualquer metodologia seja aprender a ver. Natural de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, ele focou o trabalho no que via ao redor: as potências da periferia, os desenrolos e a “gambiarratek” – técnica/jeitinho brasileiro de resolver problemas.

Em 2012 entrou na Agência de Redes para Juventude, que visa equipar jovens cariocas para assumirem o papel de agentes transformadores. Nos anos seguintes, participou de uma série de projetos sociais, como o Reciclart, no morro do Cantagalo, que converte material descartado em bolsas, e o Silvertape, festival de grafite, skate, rap e fotografia. Os trabalhos da agência são norteados pela Metodologia de Redes, que Hanier ajudou a construir.

“É uma junção de métodos e procedimentos pra construir parcerias, alianças, apoios e patrocínios, gerando uma relação onde cada indivíduo ou coletivo participante têm acesso aos outros e constrói novos processos a partir daquele inicial, facilitando avanços e novas relações entre os realizadores.”
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Desde então as coisas cresceram, ele passou pelo Ministério da Cultura, Secretaria Nacional de Juventude, ONGs, Instituto Pereira Passos e Secretaria de Estado de Esporte, Lazer e Juventude, até integrar o programa Rio Visão 500: um grupo com 50 jovens realizadores que estão conectados à prefeitura para pensar sobre os próximos 50 anos da cidade, refletindo sobre políticas públicas e democracia participativa.

“Hoje sou um dos realizadores da Ryzoma – Inquietações Culturais, uma organização que visa desenrolar metodologias e processos. Estamos sempre atentos no “entre”, nos meandros e construindo a partir do corriqueiro.”

Como ele é multi-instrumentista, seu campo de pesquisa e atuação, embora alcance diversas áreas, acaba tendo um pilar musical. Ele encontrou na música e na celebração uma forma de articular movimentos e valorizar a identidade periférica. Amante da bass music, criou a plataforma Barraco Marginal, que através de projetos como a festa TropikAll Vibez, fortalece, dá visibilidade e gera renda para jovens artistas da periferia.

O objetivo é disseminar a cultura de forma descentralizada. Esse ano vai entrar em ação a Tropitek Cru, um novo passo do que ele já tem feito: um álbum que vai unir MCs das 4 zonas da cidade, junto de um documentário sobre esse encontro.

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“A Tropitek CRU, é um trio de produtores musicais e tem três pilares: pesquisa, co-criação e território. Criamos álbuns colaborativos com outros artistas, considerando suas origens, experiências e conhecimentos. O resultado é um remix do encontro dos nossos corpos, sempre com enfoque em trocas de tecnologias lofi/hifi”

As trocas ultrapassam o universo musical, vão desde a oralidade até a gambiarratek – como exemplo, a captação energética solar de baixo custo. Todos os pontos do projeto tem a ver com o lance do Hanier: novas metodologias, aprendizados e memórias territoriais. Hanier deixou a agricultura de lado mas continuará falando do solo: afinal, nós também somos os lugares de onde viemos.

 

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