Chinelaria

A união faz a cor

o coletivo que estimula um bairro

Três amigos que encontram no graffiti uma forma de fazer a arte escoar para além dos muros. Marcio Swk, Marcelo Jou e Smael são parte do bonde de fazedores que dão vida e cor ao Santa Crew, um dos coletivos que estão na linha de frente do graffiti.

O coletivo nasceu em Santa Teresa e tem 15 anos na pista. O que fez eles se aproximarem foi a amizade e o desejo de transformar as ruas. Para os artistas, o Santa Crew é como uma família, os trabalhos, as vontades e os sentimentos estão muito interligados.

“Eu tenho o bairro como o quintal da minha casa, não dá pra bagunçar. Tem que ter respeito pela rua e pelo que tá acontecendo. ” Marcio Swk

O graffiti é uma arte que pulsa coletividade. É difícil imaginar alguém dividindo a pintura de uma tela. Mas as ruas aproximam as pessoas, é uma zona de encontro mesmo, onde o todo multiplica a expressão de cada um. Eles têm muita consciência disso e do tanto que a arte feita na rua transforma o espaço e as pessoas.

“Somos de um movimento que chega aqui em 97. Então fazemos parte de uma galera que estava abrindo as portas. A gente fazia e pensava “isso é muito legal, vamos continuar fazendo isso”. A gente pintava pela paixão.” Smael

Além de trabalharem em grupo, eles também dão aula, espalham conhecimento, estimulam as gerações mais novas. O trabalho cresce com as parcerias e com a dedicação, que nunca pode parar.

“O mais bacana é ver o quanto a gente se desenvolveu individualmente ao longo desses anos. Realizamos trabalhos juntos, mas cada um criou a sua própria identidade artística. Nós temos total confiança um no outro, a gente se ajuda.” Marcelo Jou

Embora a rua tenha uma energia difícil, os obstáculos dela acabam gerando ainda mais energia e coragem. Vencer essas dificuldades é tão importante quanto apertar o botão do jet. O graffiti é tanto a pintura quanto esse corpo a corpo com a rua, porque às vezes ela é ofensiva, tem que estar preparado.

“A gente tem que aproveitar o máximo de tempo que tem. Eu sei que a minha carcaça vai embora, mas eu posso e quero deixar um legado. Eu posso acontecer. O graffiti que eu faço pode não durar a vida inteira, e não vai durar a vida inteira, meia dúzia de pessoas podem ver, duas ou três podem gostar, mas eu fui lá e fiz. Saí de casa, me movi e realizei” Marcelo Jou

Lá no começo de tudo, eles nunca imaginaram que viraria um ofício de fato. Foram fazendo porque era natural. O resultado foi mais do que gratificante. O graffiti é uma profissão e levou a galera do Santa Crew pra vários lugares do mundo.

“Eu nunca imaginei que fosse viajar com os caras do coletivo pelo mundo. Que ia trabalhar e sobreviver disso. O importante é estar sempre fazendo, quando você está nesse movimento de fazer, as coisa vão acontecendo”, Marcio Swk

E começar é sempre mais complicado. Mas uma hora a arrebentação é vencida. E daí tudo vai encaixando melhor. Depois vem outra arrebentação, e de novo eles têm que atravessá-la. Mas a graça é essa, é superar o que parece estar contra. Assim o trabalho ganha força e vai alcançando cada vez mais gente.

“Somos trabalhadores mas eu não tenho carteira assinada. No Brasil as pessoas inventam as profissões. Tem o esteriótipo de easy going mas tá tudo ok porque tem que estar tudo ok. O contexto pra tanta gente é tão difícil, que a gente precisa ficar ok pra poder seguir” Marcelo Jou
“É legal você ver a parada pulando. É grafiteiro, mas também faz um trabalho em tela, participa de exposições.” Marcio Swk

E nesse esquema de “fazer o que se ama”, o graffiti virou link pro mundo da arte. Com o tempo eles foram ganhando confiança, experimentando outros suportes, levando as pinturas para novos lugares. E no meio disso, estimular os outros acaba sendo um dever.

“Todo mundo pode fazer. É bonito pensar nisso. Somos capazes de tudo, e isso não chega em muitos moleques e em muitas garotas que têm uma vida sem expectativas, dura. É triste ver que muitas vidas que vão pela destruição podiam mudar de caminho se tivessem mais estímulos” Marcio Swk

Um painel para seis mãos

Cada um tem uma personalidade de traço e elas se complementam. Um cuida mais da geometria, o outro das cores, o outro da composição. Então vira uma dinâmica interessante, inspiradora. Esse ano, depois de um tempo sem trabalhar coletivamente, passaram um dia imerso num painel que virou chinelo. Agora essa amizade tá colorindo uns passos por aí.

“Foi um grande prazer produzir durante um dia intenso com os meus parceiros. Rever eles depois de um longo tempo, poder pintar e criar uma parada única foi realmente uma experiência incrível. Obrigada, Rider, por juntar a gente de novo, (hahaha)”, diverte-se Smael.

Para entrar em contato com o Santa Crew, clique aqui.

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