Abrir a rua pra rua

fluxos e encontros


O texto abaixo combina com os sons que vem de fora: aqueles que não conseguimos controlar. Ler ao ar livre cai bem.

Uma cidade pode ser lida como um território largo, caótico e cheio de construções fixas. Mas uma cidade é muito mais os movimentos que ela tem do que as coisas que nela estão. A cidade consegue ser uma passagem, um porto, um palco, uma casa, um rio, uma festa, um vão.

Rebeca Brandão é moradora de Nilópolis mas vive um fluxo andarilho. Se algo perde o sentido, ela procura outras vias. Troca a rota, o foco, o método. E entre chegadas, partidas e encruzilhadas, aprendeu a identificar os processos culturais das ruas, principalmente das ruas periféricas.

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“Grande parte do rolê periférico é um rolê interno. Eu comecei a entender que a produção cultural da periferia é uma produção de experiência. O cara faz a roda de samba todo domingo porque ela tem que acontecer, porque se não tiver a galera pira. A periferia entende cultura de uma maneira muito mais próxima. Sacar isso foi transformador, o estímulo que eu tava procurando pros outros eu encontrei pra mim.”

Estudou Filosofia mas só conseguiu dar sentido a isso com a Produção Cultural. No começo, a Escola Livre de Cinema foi muito importante. “Um amigo de Nilópolis, o Alex Teixeira, tinha me falado de uma escola de cinema que tinha chegado em Nova Iguaçu, e me chamou pra fazer. Eu topei na hora. Estava um pouco perdida em relação à Filosofia”. Depois da Escola veio o IGUACINE – Festival de Cinema da Cidade de Nova Iguaçu e o Arte Fórum. Nesses projetos percebeu que a produção cultural podia estar aliada à estética.

“Do mesmo modo que o poeta usa o papel e a caneta pra produzir versos, eu uso as mesmas ferramentas pra minha criação. Porque a minha criação é menos criação do que a criação do poeta? Porque que a planilha que eu crio pra dar conta da sistematização de um monte de ideias soltas não é tão rica artisticamente quanto a produção de um artista?”
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Londres e Sampa

Mas antes de chegar nesses questionamentos, suas inquietações eram outras. Vamos fazer uma linha do tempo pra acompanharmos o pensamento dela. Antes de elaborar teorias sobre a periferia carioca, procurou mergulhar em outras culturas. Quis se afastar um pouco da própria realidade pra entender melhor o seu território.

No final de 2011, Rebeca arruma as malas e segue para Londres. A ideia era expandir o repertório sobre arte urbana, grafite e produção de sentido.

“Quando cheguei em Londres senti que tinha uma parada rolando ali. Eu não tinha noção do que era o Banksy até ir pra lá. E de como isso mudava as características da cidade e de como as pessoas passavam a se relacionar com as ruas de outra maneira a partir do que era oferecido de arte urbana”

Depois de Londres, a produtora volta ao Rio, muda para uma república e começa a reinventar a vida. Surge um edital interessante e ela muda de cidade outra vez. Chega em São Paulo em junho de 2013, quando o país tava no auge das manifestações. Pra trabalhar com o quê? Com o núcleo da Mídia NINJA.

“Cresci com uma vivência de esquerda, mas eu não era militante, eu vinha de um outro flow. Lá em SP eu tinha que produzir as coisas na rua e comecei a enfrentar uma dimensão de Brasil que eu não compreendia. Desde produzir uma ocupação com gerador e barracas até morar com o MST. Quando eu vi, o que a gente fazia era um movimento social.”
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A equipe trabalhava num processo colaborativo, coletivo, horizontal – tudo isso numa época em que os ânimos e as ruas estavam fervorosas. Na prática, viveu a democracia, as tecnologias da gambiarra, os processos colaborativos e as ocupações do espaço público. Mas é com a galera do rap que ela vive a experiência mais marcante. Seus mestres, como ela mesmo diz.

“Os caras me davam aula de como a coisa tinha virado o que tinha virado. A cultura hip hop, enquanto metodologia, conseguiu transformar toda a estética de uma cidade que tinha um coração econômico. Isso era uma dicotomia, uma contradição muito alta.”

A partir das rodas de rima – e os efeitos disso até os dias de hoje – começou a entender como a produção cultural se colocava para além de só resolver problemas. Entender o quanto ela atuava na construção de narrativas. De volta ao Rio de Janeiro, sente o forte crescimento do rap carioca – que continua em expansão.

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Movimento das Utopias e Fricções Artísticas

Depois de todo o fascínio vivido com a galera do rap, ela se sentiu ainda mais motivada pra criar coisas na rua. Então ela, Alex (amigo já citado no texto) e Luiz Fernando Pinto, começaram a criar um coletivo que se tornou o MUFA (Movimento das Utopias e Fricções Artísticas). Nesse momento, Alex tinha o Sarau do Escritório, um evento que acontece na Lapa e que na ocasião só tinha tido duas edições. A partir do MUFA, eles começaram a pensar a produção cultural como intervenção na cidade.

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“A gente começa a produzir o Sarau do Escritório e a produzir conceitos para ele. Criamos uma série de dispositivos para dar conta do que a gente queria com o Sarau. A gente queria que o Sarau fosse um evento que não se esgotasse, que fosse um espaço de intervenção e um lugar onde a gente conseguisse abrir a rua para a rua.”

Então o Sarau era aberto, em uma encruzilhada, com um palco que funcionava sem curadoria. A força do evento estava justamente na ausência de muros.

Leão Etíope: a facção cultural

“Em Janeiro eu vim para o aniversário do Leão, num pré-carnaval onde a Orquestra Voadora tocou. Cara, era Orquestra no Méier. Tinha gente saindo de tudo quanto era lugar. Gente subindo nas coisas, gente em cima dos muros.”

Os integrantes do Leão Etíope do Méier costumam dizer que não são um coletivo, e sim uma facção cultural. Rebeca passa a integrar a facção e desenvolve ações como Leoa Etíope do Méier (ação voltada para o público feminino), Campanha Jovem Negro Vivo, Leão Etíope do Méier contra a redução, Junta, Leão (ação em parceria com a Junta Local), entre outros. Através do Leão Etíope do Méier, participa da produção do primeiro e segundo Festival O Passeio É Público, que reuniu mais de 20 coletivos no centro da cidade.

A experiência de transitar do Sarau do Escritório para o Leão Etíope deixou claro que as maneiras de fazer mudam de acordo com o contexto e o grupo. Cada metodologia tem uma dinâmica diferente, e há infinitas formas de produzir uma mesma coisa. Assim, o produtor também constrói uma poética, organiza as ações assim como um artista organiza formas e materialidades. Produzir cultura é criar, e nas reflexões de Rebeca isso foi ficando cada vez mais nítido.

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“Se o produtor cultural dá conta de produzir experiência e se quando a gente olha pra traz pra contar a história de um lugar, a gente conta através da cultura, então o produtor cultural também conta a história de um lugar. Ele é um contador de histórias.”

Em 2016, estimulada a pensar a cultura enquanto experiência e a produção cultural enquanto linguagem (e não apenas como meio de execução), funda a Ryzoma Inquietações Culturais, junto à também produtora Luana Pinheiro. A Ryzoma é uma plataforma desenvolvida para produtores culturais visando criar ferramentas para a manutenção de cenas independentes: cartografias da cidade, banco de metodologias, etc.

Atualmente está em ação o Mapeamento das Ações Desenvolvidas em Espaço Público, na Região Metropolitana do Rio, que pretende fazer um levantamento de quem são e que demandas tem quem ocupa criativamente os espaços públicos do Rio de Janeiro.

Para Rebeca, a cultura urbana do Rio é diferente de qualquer outro lugar do mundo: tem cor, leveza, é eclética e democrática. É do skate, do bambolê, do pagode, do funk, da poesia, e do rap. Tudo ao mesmo tempo agora. É absolutamente possível passar o final de semana todo sem um real e ainda assim se divertir em eventos que são oferecidos no lugar mais democrático de todos: a praça.

E foi numa praça centenária que esse papo aconteceu. Depois de tanta intensidade, terminamos a narrativa da Rebeca com uma frase do filme Star Wars, lembrada por ela:

“Fazer ou não fazer. Não existe tentar.”
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