Arte-manha

a expressão de um artista pé na porta

Nosso papo começou às 23h25, com materiais artísticos espalhados pelo quarto; 6 quadros em produção rumo à Nova York e uma grana que é dividida entre a casa, os pais, a faculdade, a irmã e, só agora, um pouco pra ele. Pense num garoto de 19 anos, que não sabe muito o que quer, que ainda está numa fase de descobertas e incertezas. Esquece. Nada disso é sobre Samuel dSaboia, aka, Sarmurr.

A relação com a arte começou desde pequeno, envolvido por um ambiente artístico muito influenciado pela mãe. A família de Samuel é cristã, seus pais são teólogos e ele cresceu nesse meio. Aos 14 anos, um abuso sexual se transformou no motor de virada da sua relação com a arte. Tanto na estética quanto no começo de uma compreensão de mundo.

“A arte pra mim não é um enfrentamento porque é, literalmente, o lugar no qual me sinto confortável. Não é o local em que entro com raiva, desespero ou despreparo. É onde eu me sinto bem, é uma forma de me comunicar com as pessoas, com o mundo e com Deus; é onde me sinto vivo”.

Amadurecer não foi uma opção, foi na marra. A arte – e sua fé – se tornaram lugar de cura e autocuidado. Ao mesmo tempo que passava por um momento muito pessoal, também iniciava uma manifestação pública. Os desenhos publicados no NYMPHESHIT, com uma pegada candy colors e bem trash, projetavam seus pensamentos e expressão. A junção da internet e arte cumpriu o papel de ajudar não só a si, mas as pessoas também.

“Foi onde eu aprendi a lidar com a vida, com a vergonha, com a raiva. Foi um momento de crescimento muito grande… pelos desenhos eu conseguia falar com muitas pessoas. Em uma semana com mil pessoas, em um mês com 4 mil, em um ano com 7 mil e em dois anos com 10 mil. Foi algo muito pessoal, mas também muito público. As pessoas se identificavam com a arte mas até então não sabiam que eu tinha passado por isso.”

“Eu não vejo o que aconteceu como algo positivo, mas de certa forma moldou em mim um caráter que eu poderia demorar muito mais tempo pra criar. Criou em mim uma maturidade e uma visão que eu levaria muito mais tempo pra formar. Foi forjado de uma forma brusca, mas, talvez, eu não estivesse aqui agora tendo essa conversa e fazendo o tanto de coisas que eu já fiz se isso não tivesse acontecido.”

Usando a arte para questionar gênero, sexualidade, pensamento e vivência como pessoa negra, Sarmurr lança uma provocação: “na cultura homogênea branca, o jogo sexual e a vivência sexual podem ser entendidas como uma “fase”, um momento ou algo passageiro; mas quando trazemos isso para uma vivência negra, muda tudo. Até para as pessoas brancas testarem suas vias sexuais é mais fácil, enquanto os negros são cobrados muito mais por isso.” Ao contrário do que basicamente todo mundo pensa sobre um jovem negro, Samuel não era cria da periferia, só depois que sua família passou por um aperto financeiro que ele se aproximou do território periférico.

“Minha entrada na periferia me permitiu experimentar muitas coisas até como pessoa preta: ser parado pela polícia, os apelidos, ser barrado nas rodas e nos grupos devido ao lugar onde mora, sofrer racismo em suas diferentes formas... eu pude ver outro lado de tudo. E vi que sou muito mais daqui que dos lugares que frequentava antes.”

 

Para Sarmurr é simples. Junto com um amigo de guerra – o Gabriel Hilair -, ele levanta, entre muitas outras, a bandeira do Afropresentismo, que exerce força no agora, no qual pessoas pobres e negras são plurais e livres para questionar não só por suas falas, mas pela qualidade de suas entregas. Basicamente é assim: “Eu posso estar num meio periférico, mas a minha arte tem uma leitura que pode ser feita por um crítico de arte na Rússia ou por um moleque de 10 anos que mora numa palafita. Acredito na junção, que, mesmo minha arte sendo muito específica para pessoas pretas, ela pode ser lida e apreciada também por pessoas brancas e pelo mercado de luxo e também por pessoas pobres.”

Mudar o agora é mais importante que fazer projeções para o futuro, disso ele tem certeza. Poder alcançar e transformar a vida das pessoas com suas mensagens no agora é uma das visões e constatações mais importantes para Samuel. A entrada no SPFW com a marca Cem Freio, no Afropunk e em Nova York só mostra que o caminho das manifestações artísticas traçado está sendo trilhado com força.

“Minha arte é onde eu construo todas as pontes. Foi por meio dela que construí uma identidade que leva até meu corpo, rosto e fotos, e meus trabalhos visuais para marcas e vídeos. Eu existo como pessoa - além da personagem (personagem é substantivo feminino), mas a minha arte me liga a todas as outras pontas.”

 

Hackear continua sendo a palavra de ordem. Nada de chegar de forma silenciosa ou baixando a cabeça, é preciso saber jogar o jogo. E sem silêncio.

“A escravidão acabou, mas o ideal de escravidão e a mentalidade escravocrata ainda não acabaram. Por isso não vou ser mais silencioso, mas sim fazer minha voz ser ouvida”.

Excelência, fé e negritude são características de um fazedor que tem como meta a construção de leitura e compreensão de cenários multifacetados. Com apenas 19 anos, a certeza dos lugares que já alcançou até aqui são também válvula e projeção de um agora cheio de expectativas. O cenário criativo de Recife vem se redesenhando e também fortalecendo alguns nomes de pessoas com o mesmo fluxo. A falta de oportunidade dificulta as entradas e repete algumas barreiras já conhecidas. Alguns nomes, contudo, fortalecem a rede de criativos de Recife como Espaço Rap, festa Pandemonia, Edifício Texas, Miró Da Muribeca e Jam das Minas.

Samuel também é um dos integrantes do Dudús, plataforma que visa criar um espaço seguro e que reverbere a criação jovem contemporânea de pessoas pretas.

“Até hoje na arte negra existe a mão branca, até hoje nos meios de visibilidade negra existe mão branca e não é só no apoio, às vezes elas são as líderes de movimentos que querem pregar a revolução preta. Isso não faz sentido! Eu sou preto e eu preciso que as pessoas tenham essa leitura vindo de uma pessoa preta... somos os criadores disso no Brasil, no agora. É tática de guerrilha!”.

Pagar as contas de casa, ver o carimbo dos pais em relação a “ter um trabalho”, ser contactado por curadores internacionais e estampar a capa da matéria que lança o Afrofuturismo no Brasil são alguns sinais de que dá pra fazer ao chegar com o pé na porta, profissionalismo e uma dose extra de talento. Mais um job pra conta rolou quando Samuel foi convidado pela Rider para ilustrar a campanha da nova coleção dos chinelos Rider R86, inspirada nas ruas do Recife. As fotos foram clicadas por lá e Sarmurr foi modelo-fazedor-ponte para as artes visuais. Cola no site da marca que os novos chinelos já tão na pista!

Pega a visão: em breve ele vai lançar uma grande exposição em São Paulo. Se você quer entender o que está movimentando parte da juventude criativa brasileira, cola nesse cara!

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