Banana & LED

engenharia tropical

Dioclau Serrano resolve problemas. Dioclau ilumina as coisas. Dioclau constrói roupas de LED. Dioclau puxa cortejos pedalando uma bike. Dioclau rima com carnaval. E como bom folião, faz do perrengue uma celebração.

Na sua vida cotidiana é técnico de áudio e trabalha em show e teatro, mas é só aparecer algum pepino que ele inventa soluções alternativas pra solucionar qualquer obstáculo. Trabalha predominantemente com tecnologias obsoletas, é uma espécie de engenheiro-tropical-vintage.

“Comecei a fazer as coisas por conta própria porque sou natural da Região Transamazônica Sul do Pará, e lá não havia suporte pra quem queria trabalhar com música e tecnologia. O conhecimento era passado por quem sabia alguma coisa, pelas revistas e no improviso, e isso acaba te moldando um fazedor, por mais que você não pense muito sobre o que está fazendo.”

Seus consertos e criações começam com a observação e análise. Ele trabalha com montagem, tanto de estruturas de som quanto de elétrica, então precisa mapear as etapas do processo. O caminho do cabeamento, por exemplo, é um momento fundamental de um projeto – e na mão dele um desenrolar de fios pode virar arte.

Em resumo, ele tá sempre desenrolando ou em movimento, literalmente. E como se locomove de bike, acaba transitando principalmente na região turístico administrativa da cidade, onde o poder público investe em estrutura porém pensa pouco em ações para ocupação desse espaço. Nesse cenário surgem os coletivos urbanos (aos quais ele se inclui) que sem recursos criam atrações culturais pra cidade, porém esbarram na burocracia da máquina pública (liberações, alvarás e etc) que não faz uma leitura inteligente do processo da cultura de rua. E quando há algum fomento, ocorre de forma seletiva e setorizada.

“Gostaria de estabelecer diálogo e esclarecer discursos de quem administra a cultura e de quem “ordena” a cidade. Há uma série de leis e regras para utilização de forma responsável do espaço público, que deveriam amparar e descriminalizar as iniciativas independentes, mas por falta de “sintonia”, quem cria e quem fiscaliza as leis estão desconectados.”

Apesar da desconexão, veio a invenção: Dioclau tem uma banda chamada BILTRE, e o projeto Bananobike surgiu pela necessidade que eles tinham de fazer shows aonde quer que fosse, por isso criaram um palco autônomo e móvel. Acharam um triciclo de carga em Nova Iguaçu, garimparam uma aparelhagem na Saara, encomendaram uma “gaiolinha” para os equipamentos na Lapa, misturaram tudo e chamaram de BANANOBIKE: Uma solução de mobilidade sonora.


O estilo “tecnotosko”, além de desenvolver uma estética, cria métodos acessíveis. Hoje o BANANOBIKE é responsável pela amplificação de vários blocos do rio e já acumula muitos quilômetros rodados. Os benefícios são múltiplos: a realização de shows/cortejos com baixo custo, a liberdade de não precisar de um palco tradicional com pontos de energia convencionais e a importância de ressignificar meios de transportes não poluentes (e ainda tem aquela querida tonificação muscular, somada à saúde cardiovascular).

E os esforços acontecem em equipe, isso torna a coisa mais interessante pois há bastante troca de conhecimento. Além dos blocos, o projeto também abriga outros músicos, cenógrafos, figurinistas, produtores, VJs e DJs.

“Tenho alguns outros projetos: um deles é uma oficina de acessórios LED, nos moldes do bloco MINHA LUZ É DE LED (do qual sou membro fundador). O outro é apresentação da BANANOTECH, que vem a ser o aperfeiçoamento do soundsystem montado em um triciclo que roda pelo Rio nos melhores rolês de rua.”

MINHA LUZ É DE LED e as vestimentas já são parte da sinalização carnavalesca das ruas. A iluminação do bloco deixa as pupilas confusas, catalisando o entorpecimento da galera. Corpos eletrizantes, transitando caoticamente pela noite carioca – e a multidão cintilante cresce a cada ano.

O segundo projeto é uma derivação “silenciosa” do BANANOBIKE: o tal triciclo adaptado com caixas de som e convertido num trio elétrico ágil e despojado. Mas agora a ideia também traz uma solução para aquele problema recorrente: a tal lei do silêncio. Então a ideia é fazer um cortejo que seja transmitido para os gadgets de cada pessoa, assim cada um pode colocar um fone e curtir uma onda pessoal – que também é coletiva. Através do app gratuito BANANOTECH, o conteúdo musical será oferecido num raio de até 100 metros.

“É um sistema de rádio digital/intranet que transmite o conteúdo gerado na Bike para os telefones e seus respectivos fones sem ferir a lei do silêncio. Outro aspecto é reforçar a ideia da utilização do Triciclo como fonte de construção cultural, econômica e de cidadania, pois fora o meu caso, o triciclo é base de sustento para quem trabalha na informalidade e acompanha os movimentos culturais nas ruas do Rio de Janeiro.”

Descobrir novas fontes de energia é o motor de Dioclau. E ele nos faz lembrar que podemos fazer muitas coisas com as próprias pernas. Pedalando, pedalando na bicicletinha.

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