Bela barbeiragem

desvios, encontros e cuidados

Esse texto pode ser lido ao som de A Mulher do Fim do Mundo, de Elza Soares ou com essa sensação: o topo da sua cabeça vibrando, de tão vasto e aberto.

Uma mão com uma navalha diante de uma pessoa com os olhos fechados é uma imagem profunda. Revela um momento de conexão, de confiança, de papo cabeça. O corte pode ser só um corte, ou pode ser um ritual de resgate, uma fresta pra transformação ou transcendência.

Essa é uma história sobre barbearias de comunidade. Gessica Justino, que raspa a cabeça há tempos, é quem nos guia por caminhos de barbeiragem e revela camadas profundas do ofício: narrativas de luta, histórias de resiliência e muita habilidade afetiva. O que começou como uma busca estética se tornou relação de afeto e cuidado, pois os espaços vão além do corte, são lugares de encontro, acolhimento e trocas: onde a vaidade é transformada em penteado, a história em ensinamento, a vivência em intimidade e a conversa em amizade.

créditos:
“Sou a fazedora que vive em estado de emergência para fazer acontecer. E um dos meus maiores valores é a conexão. Para mim não adianta estar misturado se não houver conexão. Acredito que qualquer feito merece ter vida longa. E para isso é necessário que se forme uma rede forte, com elos verdadeiros.”

Gessica é dançarina. Seu corpo tem muita sensibilidade e consciência: cada gesto é preciso, inteiro, cuidadoso. Com a vida, virou também gerente de projetos, diretora de produção e consultora criativa. Mas em todas as funções sua dinâmica parece coreografada, a destreza é aparente.

Nas barbearias, as mãos que coreografam. Elas dançam sobre as cabeças e faces, em um ballet sagaz. O respeito na hora do toque, o som mântrico da máquina e os desenhos da navalha criam uma espécie de bênção. A profissão secular é honrada e ressignificada pela correria cotidiana, fazer a cabeça vira arte.

créditos:

Segundo o historiador Rodrigo Aragão Dantas, a função básica do barbeiro era, claro, fazer barba, cabelo e bigode. Mas no Brasil do século XIX, os barbeiros extrapolavam as funções primárias e viravam “sangradores”. Acreditava-se na época que essas sangrias ajudariam a curar doenças e os desequilíbrios do corpo: a cura poderia ser obtida tirando o mal pelo sangue. Os barbeiros sangradores eram em geral descendentes de africanos.

Hoje as sangrias funcionam como metáforas. Os barbeiros não tiram sangue mas estão relacionados aos processos de auto-aceitação, construção de identidade, confiança no outro – e de certa forma, esses ganhos não deixam de ser curativos pessoais e coletivos.

“O comportamento, abertura ou bloqueio corporal se dá muito pela influência do que o espaço oferece. Acredito muito que as estruturas podem ser limitadoras ou libertadoras. Como em Medellin, aqui no Brasil, qualquer medida de reparação deveria começar pelo urbanismo social. Mais fácil equalizar situações sociais quando o corpo tem condições.”
créditos:

Pra mergulhar mesmo no universo, Gessica escolheu Papinho e Mineiro, os dois são barbeiros autodidatas, aprenderam seu ofício entre gambiarras e muita fé. Sabem que a cabeça é o guia, e disso eles entendem. O resultado virou um documentário e uma barbearia móvel. Um belo jeito de espalhar estudos sobre cultura, corpo e comportamento popular brasileiro.

Os pontos de partida de Gessica foram a observância e as relações humanas de proximidade e cuidado. E o ponto final (em constante crescimento, feito os cabelos) quer falar sobre o amor ao corpo, sobre ir de cabeça, sobre estar vivo.

 

Fotos de Thásya Barbosa.

 

créditos:
Mais histórias
Chinelaria

R86

um clássico

A atmosfera criativa de João

em contato com a natureza

Faz

que sempre vem mais

Retrato nos trilhos

a foto como caminho