Campo múltiplo e afetivo

a criação não precisa ter fronteira, só espaço

A brasiliense Poliana Pieratti não poderia ter outro nome – ela ama a pluralidade. Costuma circular entre muitos universos: teatro, música, dança, artes visuais, audiovisual – e pode ser que, até a publicação desse texto, já tenha se permitido viver novas coisas.

“Adoro a dinâmica da transição. Quando a mudança vira uma frequência, você faz uma coisa mais fluida, mais ventilada. E isso abre caminhos.”
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Ela se compreende como uma pessoa inquieta, faminta. Precisa aprender, precisa trocar de linguagem, precisa mudar de cidade. Para ela, ao experimentar novas possibilidades, o medo do erro fica menor e perde o peso.

Teatro, Errância e Improviso

O contato com os palcos chegou cedo. E foi nele que passou a desenvolver a multiplicidade. O palco é um lugar de criação coletiva e múltipla, as coxias também. O grupo de teatro onde ela começou tinha uma rotina de trabalho muito intensa, atuavam mas também colocavam a mão na massa: escreviam a dramaturgia, costuravam os figurinos, pintavam paredes, faziam a cenografia, subiam os refletores, etc.

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“Eu comecei a me entender como fazedora no teatro, e pra mim o teatro é a arte do erro. As melhores apresentações são aquelas em que algum desvio acontece. Nesses momentos você percebe que a coisa tá na sua frente, viva. E aí você precisa improvisar. O improviso é sempre vivo. Porque ele é urgente. Ele tem que acontecer agora.”

Um pouco de muito

Poli começou na expressão corporal, e as relações com os gestos e com as sensações são seus verdadeiros guias. Uma prática artística pode encontrar vazão em vários meios, suportes e plataformas, mas para ela, tem algo arcaico que conecta o corpo com a arte, anterior à expressão.

“Eu gosto de pensar no que me faz ir até um piano começar a compor e não na música que vai sair de lá. Gosto de pensar no que vem antes, e isso é do campo do desejo e não da linguagem. Se tenho um ímpeto, depois procuro o meio que vai abraçar melhor aquela ideia. Mas é essa faísca inicial, essa pré-expressão que me movimenta.”

Apesar de muito fazer, ela valoriza a delicadeza nos seus processos de criação. Acredita que ao trabalhar com pouco, com limitações, a criatividade fica expandida. Muitas vezes insiste em uma mesma materialidade, uma mesma imagem, um mesmo motivo – e desdobra até o esgotamento. Faz com que uma fotografia vire vídeo, texto, som, desenho. Faz com que uma pintura acabe gerando um zine, uma cena. Então cada coisa é tratada como uma argila mesmo, prestes a ganhar uma nova forma.

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Onde isso foi parar?

“Ser fazedora é um jeito de gerar um espaço de encontro. Quando gostamos de fazer algo, temos uma espécie de responsabilidade sobre aquilo. E é uma responsabilidade que extrapola a própria vida. Precisamos nos expor: fazer com os outros, pelos outros. Só compreendo a criação quando ela é aberta, calorosa, generosa.”

Suas primeiras poesias viravam presentes pra família. Suas primeiras telas, também. No palco, gosta de endereçar o texto a alguém, a um grupo ou um arquétipo. Ela sente que a criação não funciona fora de um campo afetivo. E então, quando isso vai virando um ofício de fato, a energia da entrega não some. Vale dizer que todas essas coisas que ela faz, mesmo as mais solitárias, acontecem com o apoio, a inspiração ou até mesmo o trabalho de outras pessoas. Além da família que sempre motivou suas ideias mais descabidas, ela destaca a Adriana Lodi, sua primeira professora de teatro, o Antunes Filho, diretor de São Paulo que mudou sua vida, a Caroline Maria, uma amiga criadora que inspira ela constantemente, o Guilherme Guedes, amigo, companheiro de banda e fonte de inquietações e Clara Cosentino, com quem tem uma parceria constante – inclusive filmaram juntas o vídeo acima.

Então todas essas funções foram ganhando contornos profissionais de um jeito muito natural – embora ela admire ainda mais a força e a ingenuidade do amadorismo. Como atriz, atuou em inúmeras peças e filmes, o último entrou em cartaz esse ano e se chama Canção da Volta. Nas artes visuais, participou de algumas Mostras e uma delas está em circulação – a Mostra Bienal Caixa de Novos Artistas. Na música, faz parte da banda Cosmos Amantes e do projeto Xanaxou. Na escrita, a relação é tão intensa que além de trabalhar com conteúdo e editorias, acabou virando alfabetizadora voluntária. Por fim, foi apresentadora do Spotify e no último ano entrevistou uma galera.

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“Quando me perguntam o quê que eu faço, nunca tenho uma resposta pronta. Essa pergunta exige um bom tempo de conversa, rs. Fazer é viver, né? A gente vai ocupando um tempo que é tempo de vida. Nunca perco isso de vista.”
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