Emicida

as histórias que a gente tem

“O rap é uma janela pras emoções e vivências da quebrada.”

Tarde quente carioca, um galpão lotado espera pela MasterClass do Emicida. Ele chega com jeito tímido, bem calado. Seu silêncio é acompanhado de um olhar atento – segundos antes de entrar no palco, ele mede a distância entre os parafusos da parede e percebe que um lado tá mais distante do que o outro. Ele confere a medida e fica um pouco incomodado. Emicida é perfeccionista.

E então ele entra em cena. Primeiro sente a galera, que em geral já tá sentada, e senta também. Ele gosta de estar junto e procura os olhares enquanto fala. Com o microfone, o silêncio vira verborragia. Suas palavras emendam umas nas outras em um flow que durou quase 2 horas. 

Emicida foi convidado pelo Projeto Fazedores porque toda a trajetória dele mostra que dá pra fazer. O rapper, que acabou transbordando suas ações para além da música, é uma inspiração. De forma independente, ele e seus parças encontraram caminhos possíveis e driblaram a dureza de seus contextos.

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“Nós partimos de um lugar da sociedade de muita descrença, desilusão e miséria - espiritual até - porque uma miséria puxa a outra. A primeira coisa que a sociedade faz é te fazer acreditar que não é possível sair dali.”

O Brasil vive uma crise mas na periferia isso não é novidade. A desigualdade brasileira é uma das maiores do globo, e embora o país aparente uma diversidade alegre, estamos só no começo de uma longuíssima caminhada. Mas cada passo precisa ser dado, e é em conjunto que os passos se estabelecem. Emicida é um só, mas ele só chegou onde chegou porque soube cultivar e valorizar suas companhias. Para ele, as pessoas são como as palavras. Só têm sentido se junto das outras.

“Desde a primeira vez que alguém aqui ouviu falar de Emicida até hoje, faz uns 15 anos. Um corre baseado nas coisas que a gente acreditou. A gente nunca pensou em ser empresário. Ou ser chamado de empresário. Porque a gente cresceu sem ver alguém parecido com nós ser empresário. A gente só não queria ser a única coisa que empurravam pra que a gente fosse. O abismo, o escuro, a dúvida eram melhores do que a certeza que tava do meu lado, então a gente foi.”

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Tudo começou com a paixão pelos mangás. Emicida queria ser desenhista. Um dia ele achou no jornal o anúncio de um curso grátis de quadrinhos na Avenida Paulista. Chegando lá, não tinha mais nenhuma vaga, mas no mesmo horário ia ter um curso de rap para quem não era do rap. Ele achou a proposta curiosa e foi ver o que era.

“Entrei lá e tinha um monte de jornalista. Preto tinha eu e um outro moleque que tava na mesma sensação que eu. Meio aéreo, pensando ‘o que vcs tão fazendo aqui, o que vocês tão fazendo com a cultura dos outros’. O garoto chegou perto de mim e disse que a gente não podia deixar eles roubarem o rap da gente. No fim do primeiro dia subiu no palco, me puxou pelo braço e mandou um freestyle xingando os boy tudo. Passou o microfone pra minha mão e eu não consegui falar nada, nem um salve. Fiquei tremendo, mudo.”
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Mas pra ele o fazedor precisa ser teimoso. Então, com medo do vexame, ele chegou em casa e ficou escrevendo umas rimas, decorou tudo e ensaiou até os gestos. No dia seguinte ele acordou preparado, mas na hora de subir no palco, não saia nada do que ele tinha decorado. No susto, ele teve que improvisar – e assim seu freestyle surgiu.

Aos poucos ele começou a participar de batalhas e foi ficando cada vez mais sagaz, era uma vitória atrás da outra. O nome Emicida vem da mistura de MC com Homicida, pois suas rimas “matavam” os adversários.

Nessa época ele foi colando num bonde e gravou seu primeiro CD com o coletivo Na Humilde Crew. Era ele, Rashid, Projota, Fióti e uns camaradas que eram DJs. Eles sabiam que teriam que fazer por eles mesmos. Nadaram na onda da pirataria e gravaram o CD em casa, colocaram num envelope de papel e saíram na rua fazendo rima e vendendo o single. Mas eles competiam com camelôs que tinham toda a discografia de Pink Floyd, Beatles e Roberto Carlos. Eles precisavam crescer, arranjar outras fontes de renda. Junto com as músicas, começaram a produzir camisetas. E esse era só um prenúncio da relação deles com a moda.

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“Nós desconsiderávamos a internet. A gente mandava tudo pro Brasil inteiro, CD e camiseta. E não dá pra enviar camiseta como carta. Daí a gente passava a camiseta, enfiava dentro de uma capa de vinil e enviava como se fosse um disco. As primeiras pessoas que receberam as camisetas, acharam que a gente era hipster. Mas era só pra não pagar o correio. Nossa organização saiu daí.”

Eles ganhavam uma graninha mas era muito pouco. Não conseguiam expandir o negócio. E durante as crises sobre o futuro, o telefone começou a tocar com convites para shows. Ele não sabia de forma alguma como negociar valores, mas se portava com muita segurança, e isso agilizou seu crescimento.

“Convicção é muito importante! Ninguém vai te dar seu carro e seu telefone se você não conseguir seu carro e seu telefone antes. Se a gente não aparenta estar bem, as pessoas não vão investir na gente.”

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A carga de trabalho foi aumentando e eles precisaram se organizar melhor, o Na Humilde Crew acabou e a Laboratório Fantasma nasceu, já com uma base mais sólida. Ano passado desfilaram pela primeira vez na SPFW e em 2 dias o vídeo do desfile bateu recorde de visualização. Ou seja, a Laboratório Fantasma começou como um coletivo que produzia CDs e camisetas em casa e chega em 2017 como uma gravadora, editora, produtora e marca. Além da música e da moda, eles estão se aventurando pelo audiovisual e também querem se aprofundar na literatura.

“A gente explorou o lance do vídeo, que pra nós tem uma parada política muito foda, você literalmente consegue colocar um preto na televisão. Um vídeo com a sua quebrada, com a ideia de alguém que veio de onde você veio. A gente sempre teve uma preocupação foda com as histórias que a gente tinha.”

 

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E em todas as linguagens eles mergulham no passado, nas dificuldades de seus iguais e nas energias ancestrais. Uma das camisetas do desfile tem a palavra UBUNTU em letras garrafais. Ubuntu, não traduzível diretamente, exprime a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade.

Respeito. Cortesia. Compartilhamento. Comunidade. Generosidade. Confiança. Desprendimento. Uma palavra pode ter muitos significados. Tudo isso é o espírito de Ubuntu. Ubuntu não significa que as pessoas não devam cuidar de si próprias. A questão é: você vai fazer isso de maneira a desenvolver a sua comunidade, permitindo que ela melhore?

Nelson Mandela

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E é com essa e outras palavras que Emicida e seus parças defendem causas coletivas. Suas músicas e produções já passaram por vários momentos mas a luta contra o racismo foi virando pauta principal. Encher a passarela de pretos foi só um detalhe da longa trajetória do coletivo mas é um acontecimento que vai ficar pra história. “A gente nunca esteve interessado em fazer o caminho mais fácil. A gente queria fazer o caminho mais sólido.”

“É muito fácil falar de representatividade no caminho do marketing. A gente precisa de representatividade no RH. A gente precisa ter força pra direcionar isso pra onde a mudança tem que acontecer. Eu quero uma preta no outdoor mas também quero que ela não precise alisar o cabelo ou fingir que mora em outro bairro pra conseguir um emprego. Quero que ela possa ser quem ela é, aonde quer que seja.”

Seu último trabalho partiu de uma viagem à África. Ele queria fazer uma pesquisa, encarar as raízes e homenagear as pessoas e o território. O continente é uma grande fonte de inspiração, pois reconstrói a autoestima e abre espaço para novas narrativas. A produção do disco foi filmada e resultou no documentário ‘Sobre Noiz’, uma imersão no universo do álbum `Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa’.

O álbum foi bem recebido e indicado ao Grammy Latino. Mas Emicida se emocionou mesmo quando descobriu que o documentário ‘Sobre Noiz’ tava sendo vendido por camelôs no Jardim Peri.

“Isso mostra que a gente continua se comunicando com quem a gente quer se comunicar: com um Brasil que infelizmente não tá dentro da televisão. E nós vamos continuar teimosos. Ou nós fazemos isso ou ninguém vai fazer por nós.”
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Acima de tudo, ele faz e faz muito. Não tem medo do risco, pois arriscado seria aceitar a realidade que ele tinha. Ele faz em equipe, fortalecendo a rede dele e as outras. Ele faz pra gritar pro mundo que tá vivo – e que ele se sente vivo. E isso potencializa seu trabalho, que não é recebido como entretenimento, mas como doses de vitalidade.

A MasterClass #dáprafazer foi o teaser de uma ação mais expansiva do Projeto Fazedores: um festival gratuito e descentralizado que irá acontecer em quatro zonas da cidade do RJ, celebrando a rua e a galera que faz. Centro, Madureira, Duque de Caxias e Recreio serão os cenários dos quatro sábados de muita troca e celebração. Entre março e abril, diferentes cenas criativas do Rio de Janeiro vão se unir pra festejar uma cidade mais plural. Aguarde!

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