Favela em Dança

o impacto dos corpos

Imagine uma batida simples e encaixe a leitura nela. Melhor jeito de sacar o clima abaixo.  

Lucas Santos é dançarino. A cada momento em que vemos ele falar, isso fica claro. Não notamos só pelos movimentos do corpo, ele pode estar sentado e parado que dá pra sacar. Percebemos pela respiração fluida, pela voz que desliza sem esforço.

Lucas organiza as ideias como se coreografasse as palavras. Para ele, aprender a dançar é aprender um idioma, pois o corpo fala. Mesmo quando silencia.

E nessa busca por fazer o corpo falar, e falar cada vez mais, que Lucas e seus parceiros fundaram o festival Favela em Dança. O projeto dá destaque para diferentes tipos de danças urbanas. E mais do que mostrar passos e coreografias, apresenta corpos que tem muito a dizer e que não costumam ser ouvidos como merecem. O gesto periférico é celebrado. O corpo oprimido vence e contagia platéias inteiras. O palco vira uma ferramenta revolucionária, onde o movimento de alguns vira o movimento de toda uma comunidade.

Gestos magnéticos

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Um corpo que dança é um corpo magnético. Os olhos querem ver, os músculos querem acompanhar, os ossos vibram. A Favela em Dança é um projeto que coloca no centro da comunidade um imã potente. E atrai mesmo, desde que o projeto nasceu, só cresce.

E além do clima de festa, o evento também é uma escola. Vários dançarinos de diversas partes do globo vão até lá ensinar. As oficinas e as trocas são tão importantes quanto as batalhas e apresentações. Desde o surgimento, o Favela em Dança cria condições para artistas e regiões periféricas se descobrirem e se afirmarem como potência.

O primeiro passinho

O projeto começou com a vontade de levar aulas para a comunidade. E então, Lucas e seu parceiro e amigo, Ronaldo Marinho, pensaram que um festival ia afetar mais gente do que só as oficinas. Eles são visionários, pensam as coisas em crescimento, em escalas cada vez maiores. No início foi tudo meio intuitivo, eles não tinham ideia da proporção do que faziam, aos poucos foram se dedicando cada vez mais – e com mais cuidado – e o Favela em Dança se consolidou. A equipe cresceu e conta também com a Ingrid David, Leticia Gravitol e Luan Chelles.

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'Em um certo momento a gente viu os nossos valores e repensou todos eles. A dança é uma saída pra vida do moleques da comunidade que já crescem com o peso de estarem pra trás. Em geral somos pretos, pobres, oprimidos. O esforço é muito maior. E não é só o futebol que pode dar um futuro.”

Lucas é dançarino com alma de produtor, produtor com alma de dançarino. Oscila sua paixão nessas funções, e mergulhou de cabeça quando viu que suas ideias podiam estimular toda a cena. Com as dificuldades de estrutura, ele e a equipe abraçaram – e ainda abraçam – as gambiarras, gostam de hackear tudo. Estão conectados com outros eventos, com bons exemplos de entretenimento e pretendem transformar o projeto em algo cada vez mais amplo, assim o festival não será o único produto deles.

A cada ano eles conseguem chegar em um público maior, mas os incentivos financeiros ainda são escassos. Em geral eles precisam pensar em fazer o evento em um local da favela que tenha um ponto de fuga, assim o público fica mais seguro. Toda a estrutura de produção precisa vencer não só os impasses do evento mas também os impasses do próprio local.

“O projeto é interessante, chama a atenção. Mas muitas pessoas curtem a ideia só de longe, pois quando dão de cara com a favela ficam receosos de subir. Esses obstáculos são difíceis de acabar, pois são geográficos e sociais, principalmente.”
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Mas ainda assim, eles insistem em movimentar o morro. Em mês de festival, a economia da comunidade fica superaquecida, os lucros dos comerciantes chegam a crescer mais de 60%. Isso é importantíssimo pra eles, pois o festival é sobretudo uma ação no território e pro território.

“A gente percebeu que as pessoas são maiores que o dinheiro. Fazer a diferença num moleque do passinho – que enxerga o passinho só como diversão – é uma missão nossa. Ele pode ganhar dinheiro com aquilo, ele não sabe que aquilo é uma profissão. Ele precisa acreditar que o que ele faz é muito mais valioso.”

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Do morro pra rede

Foi pensando numa forma de ganhar dinheiro em outras épocas do ano que ele e Ronaldo sentaram numa mesa pra comer e mastigar ideias. Eles queriam criar algo novo, um produto que funcionasse fora do festival. As referências eram Big Brother, America’s Best Dance Crew e UFC.

Assim nasceu Batalhas Virtuais, uma competição de 3 semanas onde 5 grupos de 5 comunidades diferentes dançam ritmos nacionais. Cada grupo precisa criar uma coreografia e apresentar. Eles filmam todos da mesma forma e colocam na internet pra votação popular. Além de ser um entretenimento de sucesso, tem todo um impacto social.

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“Como vão pra voto popular, a gente motiva a galera a se relacionar com os fãs. O grupo que não tem fanpage e instagram, tem que criar. E o vencedor ganha 5 mil reais. Metade desse valor deve gerar uma ação pro território. Então ainda tem isso, a gente dá força pro grupo e pra comunidade dele.”

O projeto deu tão certo que o servidor caiu. Era tanta gente vendo e votando, que eles precisaram ampliar a potência da plataforma. Bateram todos os recordes da página, atingindo quase 400 mil pessoas.

Micropolíticas

A dança clássica tem certos estigmas. A dança urbana também. Mas tanto em um quanto em outro, os preconceitos entranhados precisam ser dissolvidos. Assim, o movimento do corpo vira também um movimento político: a partir da dança, a subjetividade vai se transformando e a cultura se diversifica. Um corpo suado, cansado, vibrante está mais aberto ao mundo e aos outros. Essa porosidade é uma ferramenta muito importante para as relações sociais caminharem pra um lugar mais respeitoso e inclusivo.

“A dança consegue transformar pessoas de diversas formas. Ela cuida do corpo e te faz crescer mentalmente. Você consegue defender causas na dança, porque ela te coloca num grupo. Então você começa a respeitar o lugar dos outros, e começa a se pôr no seu lugar. Ela te faz um humano melhor.”
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