Faz

que sempre vem mais

Aceleração. Talvez essa seja uma boa palavra pra começar a falar do Apolinário. Fazedor múltiplo e ágil, já fez de tudo um pouco. Em suas criações o ritmo é intenso, a urgência é grande.

O trabalho vai além dos produtos ou coisas que ele faz: Apolinário prepara o terreno pra melhorar os corres das próximas gerações – enquanto produz, questiona muito e dá aulas de criatividade – usa sua experiência pra potencializar a criançada.

“Questionar as minhas ações e fazer das fraquezas novas habilidades, acho que é isso minha vivência, acho que é isso o futuro.”

O acelerado Apolinário é o criador da Cemfreio – uma marca com peças que todos os corpos podem vestir, sem restrições de gênero e tamanho. Mas antes de vestir as pessoas, ele fazia fotos, ilustrações, textos, pesquisas. Hoje tá mais focado na moda e em dar aulas – mas as outras funções se atualizam, tudo tá conectado.

“Nunca imaginei estabelecer uma única frente de atuação das minhas inteligências artísticas, então podemos dizer que o que faço hoje é mais um estágio do que nem sei o que farei amanhã, rs.”

Para ele, a moda é autoexpressão e ela traz um viés muito aberto, onde tudo pode ser direcionado, encaixado e adaptado ao corpo – que é nosso lugar no mundo.

“Não tenho a história fofa de, costuro porque vim de família de costureiras ou sempre fiz roupa pras minhas bonecas. Na real, tenho zero. Sou o quarto de uma família de seis, todos homens, e a moda sempre foi uma ferramenta de autoconhecimento. Enquanto meus irmãos estavam metendo as polos, eu saia de casa com meu micro shorts largão e camiseta de banda.”

A roupa fala, e quando associada a um corpo, ela berra. Escolher certas peças é dar voz ao que entendemos por identidade: é um jeito de vestir os pensamentos, as escolhas, as opiniões.

“O corpo é político. Ele conversa, grita, exalta e inibe. Podemos criar novas dinâmicas, exercer novas balizas. Precisamos saber brincar com o que temos de fita dada. O que é dado, não é a melhor representação de nós mesmos, e temos de ter a liberdade de brincar com a nossa própria apresentação. Tanto que estamos em maio e eu já troquei de penteado umas 10 vezes.”

Apolinário é adepto da experiência, e aprendeu muito com as ruas – que para ele é sinônimo de vivência. Desde os tempos de skate, bateria e hardcore, até os fervos queers que ele frequenta hoje. O contato com os ritmos, com as outras pessoas e com a cidade de São Paulo é algo que aparece em suas criações. A rua é a casa de todos, aprender com ela é aprender com as diferenças, com a liberdade, com o descontrole.

“Acredito no terceiro corpo, um corpo híbrido, que performa de acordo com a vontade, sem estabelecer conexões diretas com as regras de histórico cultural e imagético. É a liberdade de viver e ser o que quiser ser! Não sei exatamente o que é esse corpo, mas tenho certeza que todos podemos usufruir desse processo de autoconhecimento e desbravamento.”

E é isso que Apolinário quer com sua criação: estabelecer novos limites de interação entre o corpo e o ambiente onde ele cria e é criado. E esse pensamento tem muito a ver com discussões sociais, e com o entendimento da estrutura na qual vivemos. Para começar qualquer transformação é preciso compreender não só as opressões mas principalmente as frestas – que é onde as mudanças começam.

“Hoje faço parte da escola de fomento de arte, uma escola itinerante de criatividade. É isso que faço pra viver, é isso que é a mudança pra mim: ver no olho da galerinha nova o autorreconhecimento, ver o poder de mudança emanando dos poros!”

Hoje, podemos não só aprender, ler e ver mas também vestir o que Apolinário cria. No fim, a moda, a fotografia, as ilustrações e os textos são apenas formas de concretizar ideias que ele quer colocar no mundo. O jeito de pensar é o motor – e está em crescente velocidade, chegando cada vez mais longe, sem medo e sem freio.

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