NaBeca:

um olhar para o streetwear no Brasil

Perceber que os movimentos locais brasileiros estão tomando conta do cenário já não é mais uma tarefa tão difícil nos dias de hoje. Não é a toa que a todo momento novos coletivos, grupos criativos e pessoas tem se reunindo para produzir algo que seja conectado com a realidade e tenha a cara que precisa ter.

Pensando nisso, e no que – os jovens – têm a ver com esse movimento, que Rider aposta em mais um projeto para abrir 2018: Na Beca. Que busca investigar a cena do street wear e seus movimentos locais. Como uma das melhores partes é conhecer gente, chamamos a Amanda Adász e Gezão Ferreira pra perto.

Amanda é fotógrafa, cria de Pirituba – Zona Oeste de Sp e tem certeza que a moda é ferramenta de acesso.

“Por meio da roupa você já pode passar visualmente o que você gosta, sem precisar falar nada. Você pode se incluir em um grupo sem precisar fazer muita coisa pra isso. É auto afirmativo.”
créditos: Amanda Adász | @samirbertoli e @saulofather

No auge dos seus 18 anos, Amanda circula por São Paulo no intuito de conhecer gente, garimpar, desconstruir a ideia do luxo, além de desenvolver seu trabalho como fotógrafa.

créditos: Lucas Amaral
créditos: Amanda Adász | @rato.rt
“A gente gosta de marcas de luxo. De marcas que não são acessíveis pra gente. Isso é luxo, mas é luxo da rua. Acredito que isso quebra a moda, é um role underground oculto que une muita gente.”

Entendendo que marcas não são suficientes, a fotógrafa acredita que você precisa saber compor de um jeito único, de maneira a firmar seu espaço.

créditos: Amanda Adász | @jjorgebarros

Apesar de pertencerem a gerações diferentes, os dois são grandes representantes de um grupo sem barreiras territoriais onde a dicotomia rico x pobre + preto x branco é substituída por um movimento fluido que permite transitar em diferentes ambientes, marcando território e deixando a militância falar de forma a sempre ser entendida.

Gezão, que também é fotógrafo de moda e desenvolve seu trabalho em Sp, entendeu que sua missão profissional está em retratar todos os corpos – principalmente femininos, que são ou marginalizados pela comunicação ou super expostos de maneira superficial. E como fazer isso? Dando a cara a tapa e acreditando na força da produção local. A proposta do cara foi de criar uma releitura do que estava sendo produzido pelas marcas trazendo realidade para o pacote. E isso inclui um mix de referências globais + pessoas reais + olhar atento para o que acontece nas ruas.

“Eu queria propor uma releitura do público dessas marcas, mostrando que o preto tem poder, que ele representa. Que a drag gorda tem valor. Eu precisava reconstruir imagens e ir além.'
créditos: Gezão Ferreira | @layfestyle

Para Gezão a moda é a possibilidade de se conectar com o mundo e expressar algo que só você ou a sua galera produz e entende, é a sua forma de ser e estar para o mundo.

“Meu stories (Instagram) é como eu vejo o mundo. Da Rússia, da Ucrânia, África, Corea, China, Japão - Pinterest, Tumblr, todos os dias com referencias mil. Hoje já entendo o que as pessoas gostam x não gostam de ver.”
créditos: Gezão Ferreira

Aquilo que antes separava, como dinheiro e status, hoje já não funciona dentro da mesma lógica. Se antes apenas pessoas ricas consumiam uma moda de luxo, hoje o pobre também pode, por meio dos brechós e pagando menos, o que pra ele é a virada da chave.

créditos: Gezão Ferreira | @priscila.jung
“Se acham que você é importante, acredite que você é. A gente chegou num ponto que o jovem não quer juntar grana pra comprar carro e casa. Ele já entendeu que isso não vai acontecer! Não pensamos no futuro, existe futuros apocalípticos acontecendo agora. Se a gente quer fazer, temos que fazer agora.”
créditos: Gezão Ferreira | @natalissima

E falando no futuro do presente, Gezão bota fé que quanto mais gente se juntando e conectando, melhor. Ele entende que os códigos da moda nacional e linguagens de grupos como Brechó Replay (trabalhando a desconstrução de gênero, raça e periferia), os Sneakers Head (oriundos do rap e não negros necessariamente) e as Criminosas (mulheres desassociadas do crime, tatuadas ou não, elas impõe estilo e respeito – são as bad girls. Não tem nada a provar pra ninguém e são seguras de si) são aceleradores de um processo de deslocamento do centro.

créditos: Gezão Ferreira | @layfestyle

“Quando todo mundo [os grupos] começam a trocar, conversar e adquirir referência um do outro, estamos criando novas formas para o streetwear. A gente pode tudo, mas fomos criados num país que dá limite pra gente de que podemos x não podemos.” 

Acreditando que o Brasil é o país do futuro, ele alerta que aquilo que você veste pode não ter necessariamente a ver com sua personalidade. Você pode se vestir e passar um código visual mas se perceber de outra forma. Somos muitos e múltiplos, não existem caixas. Moda é isso!

O projeto Rider Na Beca já está acontecendo e além das duas figurinhas da vez Amanda Adász e Gezão Ferreira, a revista Fort Magazine entra pro time trazendo seu recorte sobre o tema e servindo também como um portal de intercâmbio cultural. Investigar o streetwear brasileiro e a conexão com a cultura local nas cidades de Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador é a missão do projeto. Fica ligado que em Janeiro contamos mais!

Mais histórias
Chinelaria

O objeto vira conteúdo

Um só tema pode ser uma fonte inesgotável

A gente raxa

mulheres que rompem barreiras

Sem caôs

a mãe como ela é

Faz

que sempre vem mais