o Truque

artes e tramoias

O clima desse texto é uma mistura de aula de artes com David Lynch.

Fernanda, Juliana e Marrie: o trio que estreitou os laços ao criar um monstro.

“Surgiu um evento da Kolor, a Ilha. O evento exigia uma instalação e não só as publicações, então em 3 meses nós cuspimos 4 publicações, 2 videos, uma instalação fotográfica, e um monstro – o monstro desejante, que tinha 8 braços de 3 metros cada, quase uma alegoria de escola de samba.” FERNANDA

Desde então elas trabalham juntas, nem sempre com 6 mãos – ou 8 braços, mas conectadas. Resolveram juntar as forças e os temas em comum e fundaram o Truque, um estúdio de criação.

“O nome truque tem essa ambiguidade que gostamos de refletir no nosso trabalho. Um truque pode ser algo bom ou algo ruim, cômico ou trágico. O equilíbrio do “terrir”. Gostamos de falar dessa balança.” JULIANA

E entre risos e horrores, as três pintam, escrevem, desenham, esculpem, fotografam, vendem. Cada uma é mais inclinada para um lado do fazer mas compartilham dos interesses e das poéticas que estão por trás das ações.

“O conceito das coisas normalmente é conjunto, mas acho que eu tenho um talento para relacionar as partes, fechar as idéias e conceituar. A Ju de conceituar e esmiuçar os projetos, aprofundar os esboços e assuntos, e a Marrie tem uma visão muito prática, sabe como fazer alguma coisa funcionar.” FERNANDA

Marrie é do tipo que bota a mão na massa, literalmente. Gosta de se expressar fazendo. Fernanda não tem paciência manual, quebra e estraga tudo – então prefere atividades intermediadas por um computador. Juliana gosta de fazer o que não sabe, então experimenta de tudo, com ou sem máquinas no meio.

“Em relação a espaço, nos dividimos entre Rio e São Paulo, a Ju mora em SP e esse ano estamos com um ateliê lá, na casa Nubam. A Marrie tá no Rio, e eu sou dividida mesmo, devo passar a maior parte do tempo no Graal de Rezende.” FERNANDA

Nos últimos anos muitos coletivos surgiram. Em geral, todos os ofícios dependem da coletividade, mesmo os individualizados. Acontece que pensar como coletivo é diferente de estar inserido em um processo onde os outros participam. Pensar como coletivo é repensar as estruturas de trabalho impostas.

“Todas essas formas de gestão coletivas, que tem se falado muito, não hierárquicas, e etc, enxergam cada vez mais as organizações como organismos vivos, menos engessados em posições e hierarquias, onde o flerte com o caos e a flexibilidade podem funcionar mais do que muita ordem e regras.” FERNANDA

E apesar da convivência e da complementaridade, cada uma tem seu próprio truque. Fernanda gosta do clima de apagamento, corpos sem limites definidos, prismas assustadores e cinematográficos. Juliana tem uma pesquisa constante do equilíbrio entre horror e humor, personagens meios vivos, meio mortos, falsos, fingidos mas com desespero real em suas mentiras e dramas. Marrie gosta de criar partes de corpos, monstrinhos e deformações. Em comum, falam sobre relações humanas, lados escuros das personalidades e essa atmosfera do susto que nunca se apaga.

No Festival Rider #dáprafazer, elas criaram um zine: “Não chama o meu amor de tara”, a publicação feita de fotos, colagens, textos e desenhos fala de um Rio de Janeiro delirante, onde a desgraça e a nobreza se confundem.

O trabalho está sendo exposto na pop-up oficial, que também conta com outros produtos exclusivos criados especialmente para o Festival. Além do Truque, tem Acorda, Cruz, João Noronha, Bendita Gambiarra, As cordinhas e Vendo Coisas Lindas.

A pop-up já passou pelo Centro, por Madureira, e estará em Caxias e no Recreio nos próximos sábados: 01 e 08 de abril.

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