Pintura viva

a ancestralidade dos traços

Escolha uma pedra ou um objeto que caiba em sua mão. Aperte. O texto vai bem com essa sensação e com a música Moon, de Björk.

Mais um dia bem quente no Rio de Janeiro. O destino era Irajá, localizado na Zona Norte da cidade. Fomos ao encontro de Raphael Cruz, artista visual e cria do bairro.

Cruz aguardava no portão, enquanto trocava ideia e compartilhava um cigarro com dois amigos. A casa dele é uma das últimas e no fim da rua tem uma pedreira linda. Sobre ela, nuvens avisavam que o calor chama a chuva. Antes da água chegar, um garoto solitário empinava uma pipa rosa.

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“Tudo o que eu trago comigo no subjetivo: a forte referência feminina, o samba, a vivência de terreiro, a capoeira; afetam e influenciam diretamente a minha pintura.”

A primeira lança: PICHAÇÃO

Na subida pro seu quarto, vemos algumas pinturas nos muros. E assim, a casa de Cruz vai tomando forma a partir de seus traços.

“A pichação é, talvez, a primeira pontada para o jovem periférico conseguir colocar para fora o que o tá dentro dele: uma expressão que é só sua.”
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Para Cruz, existe pouco estímulo artístico na vivência de uma criança de periferia. Ele lembra que no ensino fundamental, aula de artes era sinônimo de copiar desenhos pré-existentes. Não havia espaço para expressar algo que realmente sentia.

Foi a partir da sua ligação com o movimento hip hop, o único movimento onde ele conseguia se sentir parte, que ele começou a pichar. O hip hop une a pintura, a dança, a literatura e a música, dando espaço para pessoas de diferentes linguagens.

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“Foi estudando sobre o surgimento do hip hop que eu conheci o Graff Hip Hop e foi nessa parada que me encontrei. É um grafitti mais transgressor. Não comercial. Nele eu podia usar a criatividade e gastar pouca grana”.

O grafitti, por sua vez, foi o canal de expansão para as telas de lona, em uma pintura mais “clássica” e também para as telas do audiovisual — onde já realizou trabalhos de direção cinematográfica de filmes infantis. Cruz acredita muito na influência positiva da arte na vida da criançada, e gosta de se dedicar pra essa nova geração.

“A Rua é um trânsito de emoções”

A relação com o trabalho coletivo é muito presente no grafitti, pois grafitar muros é criar com muitas mãos, é respeitar o espaço do outro dentro das imediações do muro, e entender como a arte de um se conecta com a arte do outro.

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“Na rua não costumo pintar sozinho. Criar com os amigos é muito melhor. Você tem companhia, aprende e ainda coloca o papo em dia.”

Cruz também é um dos realizadores do Coletivo Passa o Satélite, vivência permeada de atividades, onde durante um dia inteiro há apresentações, oficinas, contação de história, trocas e etc. A programação é super inclusiva, contempla várias faixas etárias, atrai a família toda e cria um ambiente que celebra as diferenças.

“Em todo evento artistas locais se apresentam. Da galera do funk à da igreja. Aqui tem muita gente fazendo mas sem se conectar. Eu acabo me tornando referência de várias crianças aqui da rua. E isso é muito foda. Vários dos meus ídolos também são meus vizinhos.”

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A tela

Seu espaço íntimo é onírico: pinturas em telas, pinturas em pedras, livros, ideias, objetos e sons se espalham na penumbra avermelhada do seu quarto. O Egito Antigo e a música são as inspirações mais pulsantes nas telas de Cruz. O contato com a história antiga, com a ancestralidade dos povos africanos e com o ritmo, foram os maiores disparadores para que ele começasse a criar os seus próprios desenhos. A partir de um certo momento, algo precisava escoar para além dos muros, num processo mais subjetivo mesmo. E foi então que começou as pinturas em tela. Há seis anos ele faz esse trabalho.

“Os povos do Egito Antigo tinham um trabalho de pintura muito incrível. E eles faziam sem muito recurso. Não tinham nenhum avanço tecnológico eletrônico. Fico me perguntando como seria o trabalho de artistas do Egito, Togo, se eles ainda pintassem hoje em dia.”
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Já a inspiração na música aparece através de artistas como a Björk. Para ele, a cantora consegue colocar os sentimentos nas suas criações — ele destaca a letra de Moon, indicamos a leitura. Na pintura, a inspiração de Cruz é o artista americano Basquiat.

Mas ele também tem inspirações mais próximas. Quando Cruz estava pensando em desistir do grafitti, encontrou Rack, um outro jovem grafiteiro. Todo mundo tem aquele amigo que apareceu num momento difícil. Um amigo que entusiasma. Inspira. É pelo apelido carinhoso de Mestre Rack que Cruz se refere ao amigo.

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O mural mais significativo

O trabalho que Cruz considera mais significativo é o mural que desenvolveu com Rack, no teatro Sérgio Porto. O convite foi realizado pelo coletivo de teatro Bonobando, que na ocasião estava ocupando o teatro com o espetáculo Cidade Correria.

“A gente tinha que fazer uma pintura relacionada com a narrativa da peça. Queríamos dialogar com o povo de periferia. Como Humaitá não é um bairro periférico, a gente começou a mapear quais ônibus ali tinham favelas como destino, e descobrimos linhas que passavam pelo Chapéu Mangueira, Rocinha”

Cruz e Rack usaram a referência das libras para pintar mãos com os símbolos das facções criminosas dessas comunidades do Rio que cruzam Humaitá em transportes públicos.

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“A gente quis representar a correria como as pessoas que atravessam essas cisões, esses cercos que existem entre as zonas da cidade”.

Para o artista, esse trabalho foi muito importante pois realmente afetava. A galera que passava, só entendia as mãos quando tinha repertório de vivência para isso. E os símbolos estavam lado a lado, unindo diferentes comunidades em um só painel.

“Enquanto a gente pintava, os motoboys, as crianças, os jovens, os trabalhadores, desciam pra tirar foto com o painel. E foi muito legal aproximar esses símbolos, é uma maneira de diluir as barreiras. Juntos somos muito mais potentes”.
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