Rente à lente

o retrato de um fotógrafo

As imagens podiam ter passado de raspão mas o atingiram em cheio. Como criança dos anos 90, cresceu vendo muita TV, mas o controle remoto não dava conta da sede que ele tinha. Hick Duarte queria inventar imagens. E assim começa a história do cinegrafista mirim, que desde a infância registra o que vê.

“Quando descobri que meu pai tinha uma câmera VHS, eu o convenci a gravar um “programa” meu e certamente temos essas imagens até hoje. Eu entrevistava a minha mãe, meus primos, a gente se fantasiava, etc. Meu pai registrava tudo com aquela câmera, e eu passava um bom tempo nas minhas festas de aniversário só filmando as pessoas!”

Então Hick queria ser o apresentador e o cameraman. Queria entrevistar e filmar. Queria segurar o microfone e também espiar. Com o passar dos anos, a relação precoce com o audiovisual foi se firmando mais e mais. Na faculdade escolheu o Jornalismo e sua verve documental foi ganhando contornos profissionais muito cedo.

“Minha mãe precisou me emancipar aos 17 anos e eu lembro que comecei a sair mais por conta disso. Eu tinha juntado uma grana e comprado uma point and shoot no Mercado Livre, para fazer as minhas próprias fotos. Eu frequentava tanto o Goma (uma lendária casa de shows e festas de Uberlândia) que eles me chamaram pra trabalhar e cobrir toda a programação de eventos.”

Foi uma época muito livre e aberta a experimentações. A descoberta de sua juventude foi acompanhada pela câmera a tiracolo. Vivia muitas coisas pela primeira vez mas as lembranças permaneciam vívidas – arquivadas nos negativos e cartões de memória.

“Era uma época em que a noite era cheia de montação, as pessoas se produziam muito. Muitas festas temáticas, a história dos dresscodes era forte, e talvez esse tenha sido o meu primeiro contato mais direto com a moda.”

Então a rua, a noite e a moda criaram uma atmosfera pro trabalho do Hick, esses traços são perceptíveis até hoje. E não se trata da moda formal, que começa na área criativa de alguma marca. É a moda que parte das pessoas, do uso das peças, das combinações. A moda no corpo e não no cabide.

“Eu acho que acima dos jargões de marketing ou das palavras da moda, contar histórias autênticas nunca foi tão importante. Você pode vestir a pessoa com algo que ela nunca usou antes, posicioná-la em um contexto estranho. Mas quando ela acredita no que está fazendo, a expressão sincera aparece.”

Suas fotos são principalmente retratos: a pessoa retratada é valorizada, as sensações vividas no set importam – e isso chega no espectador.

“O que eu procuro é criar uma relação de intimidade e transparência no momento em que estou fotografando. A energia de um shooting conta muito para a imagem final. Já participei de muitos projetos em que as pessoas não entendiam isso e o resultado é radicalmente diferente. A energia, a música, o humor, a comida, os momentos de pausa, a identificação da pessoa com o que ela está vestindo ou fazendo, tudo conta.”

Quanto mais as pessoas estiverem à vontade, melhor. A autenticidade não tem a ver com uma verdade profunda e individual, mas com uma ausência de tensão. Isso aparece na frente e atrás das câmeras, no planejamento e no clique. É uma liberdade que precisa ser compreendida por todas as etapas do circuito – onde as pessoas possam ser o que são, sem rigidez , e isso inclui a invenção. A liberdade alimenta a criatividade.

“Como jornalista eu sempre entendi o documental pelo viés da crueza, o registro como aquilo é, mas hoje como fotógrafo (e sendo menos purista) eu acho que certas intervenções visuais são importantes. Isso é mais simples e frequente do que se imagina. Pode ser trocar a roupa de alguém por uma camiseta branca. Brincar com um fundo colorido na rua. Ou enfaixar a mão de um skatista que cai todos os dias.”

É como se fosse uma abordagem “pseudo-documental”, onde dá pra intervir na imagem sem descaracterizar o assunto ou o personagem – interferindo no contexto e nos detalhes. A escolha de uma locação, por exemplo, que é muito mais do que um “fundo”. Um cenário pode virar personagem, ele é capaz de contar uma história e traz informações de luz que afetam 100% o que está sendo clicado.

“Foi o caso da última campanha de Rider que fotografei. Escolhemos a EBAC na Vila Madalena, em São Paulo: salas espaçosas, recorte de luz das janelas, um cômodo inteiramente branco, uma cobertura em 360 graus… Em um só lugar consegui reunir diferentes climas. Dentro de um contexto urbano, é meio que uma locação dos sonhos.”

E além do ambiente, uma fotografia pode ser inspirada por diferentes linguagens. Para Hick, é possível pensar uma foto a partir de uma música, de uma frase, de uma cor. A enxurrada de fotografias que vemos diariamente nos blogs, redes sociais, tumblrs, boards, acabam atrapalhando mais do que ajudando.

“É muito difícil ir para um trabalho comissionado hoje sem esbarrarmos num moodboard. O problema não é o moodboard em si, mas a superficialidade. Na maior parte das vezes são fotos de seis meses atrás e eu sei porque eu também consumo esse tipo de referência, elas te cercam, é inevitável. Mas a exigência de se cumprir referências imediatas é ofensiva, é ruim pra todo mundo. Eu prefiro mil vezes receber uma pintura, um disco, uma cor, uma paisagem, um lugar ou um texto como ponto de partida do que uma fotografia já concebida.”

Hick faz fotos autorais e comissionadas. Filma e conduz criações. Já fez quatro exposições individuais: Youth, Old Souls, Rente e Gaps, essa última acabou de acontecer em NY. 

“Vai ser uma compilação de imagens de trabalhos autorais, fotos de viagens pelo Brasil e imagens de arquivo até então não publicadas. O nome é 'Gaps' porque espaços em branco foram super importantes na expografia e porque acredito que os intervalos de tempo entre um trabalho e outro são fundamentais para o pensamento crítico e o amadurecimento.”

A emoção final que uma foto transparece pode ter a ver com qualquer coisa que não uma imagem. E em um momento tão híbrido, onde a fotografia é tão democrática, Hick acredita que precisamos misturar mais o que vivemos pra chegarmos em lugares diferentes. Ele é um forte entusiasta do remix, do crossover, da intersecção entre os meios e linguagens artísticas.

“Acho que é o que melhor caracteriza a era que vivemos e é certamente o que vai nos levar a algo novo.”

 

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