Retrato nos trilhos

a foto como caminho

De noite o texto encaixa com o som do Rashid. De dia, vai bem com um bolinho gelado. Qualquer bolo, só precisa colocar na geladeira um tempinho.

Elias Mast aparece na saída da estação de trem. Atravessamos com ele a passarela que leva até sua casa, em Deodoro. No caminho, um cego pede ajuda e Elias o guia até uma loja de materiais para construção. Vamos juntos protegendo o rapaz. Enquanto conversamos sobre imagens, há entre nós uma pessoa que não vê. O grupo sente junto a mesma comoção. As falas vão parando. Entramos na comunidade, o silêncio entre nós só cresce – e os sons dos carros, junto dos barulhos da criançada, viram uma paisagem.

Entre ver e sentir tem um espaço enorme. Há quem fotografa com os olhos e há quem utiliza o corpo todo pra escolher um enquadramento, uma luz. Elias é novato no que faz, mas parece que faz isso desde sempre.

Acaso amigo

Entrou na fotografia por um acaso do destino: um menino, que é seu vizinho, tem um tio porteiro de um condomínio de luxo. Uma das moradoras brigou com o marido e despejou no lixo vários de seus pertences. O porteiro viu as coisas e deu para o sobrinho. No meio dos descartes, tinha uma câmera fotográfica e ele achou que não funcionava. Vendeu para o Elias por 30 reais – sendo que a câmera custa quase 5 mil. A câmera não ligava por falta de bateria mas com a ajuda de um carregador universal, Elias ressuscitou a Fujifilm X100. Pensou em presentear uma namorada com ela, eis que o namoro acaba e ele mergulha na câmera. Vira fotógrafo. Ele tava estudando pra entrar na Marinha do Brasil, mas em menos de um ano ganhou outra profissão.

 

Antes da lente

Como muitos da periferia, começou a se expressar com a pichação, depois veio o grafite e as rodas de rima – ele não chegava muito perto do mic, mas ajudava a organizar. Sua relação com a imagem tava muito conectada ao que ele via, principalmente as cores e a estética de Deodoro.

“A vibe da pixação tá no meu trabalho pelos locais onde eu fotografo, em geral lugares abandonados, cheios de tags, lugares em ruínas. Geralmente retrato as pessoas que se identificam com a vibe. É um jeito de falar do lugar de onde eu vim.”

A luz do Rio de Janeiro é gritante, explosiva. Na praia, isso estampa o mar e os corpos. Na zona norte, isso revela as texturas do underground. Deve ter a ver com o ir e vir dos trens. Ele cresceu em Deodoro mas só na adolescência descobriu alguns trilhos abandonados que ficam próximos à sua casa. Ele diz que lá é seu estúdio. Elias é predominantemente retratista, mas o ambiente exerce tanta força nas imagens quanto as pessoas que ele fotografa.

Pra ele, o morador de favela tem a mente expansiva, e o próprio território provoca isso. Então os seus cenários são personagens, ele realmente tenta – e consegue – dar visibilidade à comunidade. Inclusive grafitaram um muro perto de sua casa em sua homenagem, já que ele virou o “registrador”. Fizeram um desenho de uma câmera fotográfica apontada para as ruas e falaram: ”através do seu olhar e da sua câmera, o mundo é diferente”.

“Quando eu vi que eu gostava do negócio, estudei muito. Ficava o dia todo no Youtube vendo tutorial. E eu dei sorte, tive pessoas que me ajudaram, por isso foi rápido. Eu sou muito aberto aos outros, ouço uma dica, um conselho e acolho.”

Elias é um pouco tímido, um pouco na dele. Queria deixar as pessoas mais confortáveis na hora das fotos e foi assim que começou a fotografar com uma parceira, a Lissah Nigra. Ela é mais solta, produz com ele e cuida da direção de arte, figurino, etc. Com ela, as pessoas ficam mais à vontade. Eles trabalham em conjunto.

Uma de suas primeiras modelos foi Lúcia, sua mãe. A foto de capa do Facebook dele é um retrato dela. Mas a fotografia foi ficando mais séria só depois de alguns ensaios sensuais que ele fez, incentivado por algumas amigas que queriam posar pra ele. Muitas garotas que estão com alguma crise de autoestima o procuram e a partir das fotos ganham mais segurança e se aceitam mais.

“Eu acho que as meninas fora do padrão são as mais importantes, é muito mais gratificante do que fotografar modelos profissionais. Dia desses fiz o ensaio de uma garota que se criticava o tempo todo, ela se diminuía muito. E a Lissah, que trabalha comigo, não gosta disso. Ela diz: “não, você é linda”. E a gente repete isso até a pessoa acreditar.”

É por essas e outras que ele não curte alterar os corpos na edição. Mexe só na cor. Aprendeu a tratar com o amigo Gabriel Camacho, que trabalha com vídeo e pós-produção. Camacho envia uns frames de vídeos interessantes e Elias tenta levar suas fotos pra um clima parecido.

O rap cola junto

Mas ele não quer de forma alguma se limitar aos ensaios sensuais. Gosta de registrar life style, cultura urbana, o rolê do hip hop. Isso foi abrindo portas para que começasse a fotografar algumas marcas. E porque fotografa pra marcas, acabou chegando até alguns artistas. Recentemente fez um ensaio com o Rashid, que conheceu ele por causa das fotos que fez pra Vandalism81. O dono da marca, Wagner Tujaviu, acabou fazendo a ponte entre os dois.

“Ouço Rashid há anos. Tenho até um autógrafo dele num guardanapo, tá guardado desde 2011. Terminar 2016 fotografando esse cara é tipo um sonho. Quando eu cheguei em Sampa, ele disse que acompanhava meu trabalho e eu levei um susto.”

Segundo Elias, a música Coisas Dessa Vida, do Rashid, parece a narração da vida dele.

Se a senhora me criou pra voar, mãe

Não poderia subir sem te levar, mãe

Por que orgulho é o que eu quero te dar

E mais alguma besteira que eu possa comprar

É clichê, mas eu fiz por você essa canção

Se bem que todas as outras também são…

Mãe

Enquanto a gente conversava em sua casa, a mãe dele chegou. Ela trazia uns salgadinhos pra gente e foi pura simpatia. Elias tem muito orgulho dela, diz que é sua maior referência. Ela veio da roça com 3 filhos e sustentava eles sozinha, passando roupa pros vizinhos. Ela o ensinou a valorizar cada detalhe da vida.

As ruas, os vizinhos e a família são parceiros valiosos. E apesar de Elias não ter uma religião, escolheu um trecho da Bíblia – que aprendeu a ler com a mãe –  pra resumir sua trajetória:

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.”

 

 

 

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