Chinelaria

Saltos, vôos e conexões

uma vida “skatável”

De dia, esse texto vai bem com cheiro de café moído. De noite, combina mais com alguma faixa de A Tribe Called Quest.

O Rafael Narciso mora em Curitiba, então conversamos com ele por skype. Durante a chamada, o cenário era o seu jardim e atrás dele havia uma mini ramp. Um ruído de obra acompanhava a conversa (por ironia do destino, era um ruído de lixa). O universo do skate é o universo dele. E mesmo indiretamente, tudo ao seu redor chama isso.

Quando adolescente, começou a trocar o futebol pelos shapes, o bairro onde morava pelo centrão — lá era possível encontrar uma galera que procurava as mesmas manobras, que lia as mesmas revistas gringas e que comprava roupas e tênis parecidos. Para ele, o skate direciona a street wear — tá diretamente ligado à moda.

Perto dos 18 anos, abriu uma marca com uns 10 amigos — todos tinham patrocínio e começaram a querer umas roupas diferentes. Queriam criar as próprias peças. E conseguiram.

“O fazer é diferente do que a gente imagina. A marca começou a funcionar de verdade quando a gente abriu um escritório mas dos 10 amigos, sobraram 3. Os que não curtiram a vibe do escritório, continuaram a participar como atletas, como artistas.”

Essa primeira marca se chamava Látex e durou de 1999 até 2004. “Não sabíamos como cuidar da parte financeira. A gente tinha um escritório legal, com mini ramp, vendíamos bem mas ficamos devendo pro banco. Não entendíamos nada de juros, operações financeiras, investimentos.” Depois dos 5 anos em atividade, rolou um bolo de gestão e eles fecharam as portas.

E então, alguns anos depois, veio a ÖUS, fundada por Rafael e seu irmão, Bruno Narciso. Os dois criaram um laço que extrapolou a parceria familiar. Se dão bem, se complementam e conseguem criar super bem juntos. Na equipe também tem o Anthony Nathan, parceiro e desenvolvedor de produtos.

A ÖUS é uma marca de tênis genuinamente brasileira, todos os produtos são fabricados aqui e eles lançam em média 1 modelo a cada 6 dias. A dinâmica é veloz, parece estar sobre rodas, literalmente. Além da equipe eles também tem um blog, um time de atletas que colam com a marca e um grupo de “deformadores de opinião” — pessoas que fazem a diferença em seus meios.

Desenvolvem modelos para praticantes de skateboarding e adeptos da cultura urbana. O foco tá no design e na qualidade. Eles tentam dissolver a antiga ideia de que os produtos importados são sempre melhores que os brasileiros e valorizam a cultura nacional, geram emprego no próprio país, dão visibilidade para os artistas nacionais e apoiam os atletas.

Para manter a singularidades dos seus produtos, a ÖUS costuma buscar novos materiais em lugares inusitados, que vão de bancos de carro ao sofá da vó.

“Transformamos nossas ideias, sonhos, viagens e experiências em pares de tênis. Pares Ímpares”

A cada remada, uma nova imagem

Para Rafael, o skatista treina o olhar desde sempre. Anda pela rua com a pupila atenta, com o corpo ativo. Procura na arquitetura da cidade soluções “skatáveis”. Interpreta a cidade como uma pista, e isso vai desenvolvendo a relação com a imagem, com a geometria e com as texturas.

“Meu pai é ceramista — minha família é ligada a arte mas eu não fazia desenho nem nada — eu andava de skate — e o skate tá conectado com o visual, desde sempre: pela arquitetura, pelo próprio shape. O cara não usa um shape se o desenho não for daora”

O skate também tem muita ligação com a criatividade e o erro – não como lugar de fracasso e sim de evolução. Geralmente muitas tentativas dão errado antes de uma manobra funcionar. Essa visão de mundo, onde a queda e o tombo são inerentes, fez o Rafael pensar o trabalho como um lugar de experimentação.

“Eu gosto de fazer produtos — adoro — essa é a primeira coisa. A segunda é que eu gosto de fazer algo funcionar — e ver aonde ele pode chegar.”

Ele também gosta muito de transformar — sempre transforma algo que vive em tênis. A equipe da ÖUS viaja muito para buscar inspiração, para sair um pouco da própria realidade. A pouco tempo foram pro interior do maranhão, viram umas mulheres que fazem artesanato com palha de buriti e convidaram elas para a criação uma coleção.

“Todo o processo com a palha é muito interessante, e também com as tintas. Elas criam várias cores e o pigmento é sempre natural – admiramos tanto o trabalho que ficamos inspirados e queríamos dar mais visibilidade para cada uma delas. Na tag de todos os tênis tem o nome e telefone dessas artesãs do maranhão.”

Criar junto potencializa

A ÖUS está em constante parceria com empresas e artistas. A marca já realizou cerca de quarenta colabs. Desenvolveram produtos inclusive com uma galera da música, como o Marcelo Yuka e o KL Jay (Racionais MC’s). Em 2016 foi a vez da dobradinha com a Rider.

“Foi a primeira vez que fizemos chinelo. Trocamos ideias sobre o que poderia ser feito. Foi bem colaborativo o desenvolvimento. A galera da Rider ajudou com hipóteses de aplicação. Chegamos no fusion, uma técnica que é só colada, sem costura”.

A relação com o audiovisual tá presente na marca desde o princípio. O filme da campanha tem uma cara de cinema — foi defendido como um curta e não uma publicidade — então tem outro tempo, outro clima. Foi feito com a galera da Banzai Studio, parceiros desde o começo.

 

O PROCESSO

O trabalho é muito maior do que só desenhar e projetar. As mudanças é que são o trampo de verdade — adaptar, refazer, repensar. Tem que ter um desapego enorme.

“Se você vai fazer algo que vc não conhece, você viaja – um desenho incrível pode ter partes que não conseguem ser feitas: você cria uma lâmina com sombras, vários detalhes e isso não aparece na impressão. Então tem que ver o que você quer e encaixar isso no que é viável.”

Eles trabalham com uma cadeia grande de fornecedores, etapas muito distintas estão dentro do mesmo processo. O pilar da criação deles não é a ideia de cada tênis, mas fazer as pessoas entenderem o que eles estão precisando. Ser designer exige muita comunicação: explicar para as pessoas, convencer cada um, encontrar soluções práticas, mudar de percurso, descobrir saídas. A criatividade tá muito mais nos desvios que eles fazem do que na ideia original.

Tendências e especificidade

“Sinto que as tendências funcionam em grandes ondas — tsunamis mesmo — uma parada vem e toma conta de tudo. Quando vejo uma parada legal entrando na moda fico até com pena — porque acaba tomando uma proporção tão grande, acaba escancarando tanto que a própria tendência se perde pelo excesso de aplicação.”

Então eles tentam pensar cada tênis dentro da especificidade dele. Tentam dar valor e atenção a cada par, para conseguirem criar pares ímpares. Para eles, o Fazedor precisa ser flexível, dinâmico: trabalhar menos com o comentário e mais com a ação.

Perguntamos se ele tem admirado alguns Fazedores e ele citou a Class, uma marca de bonés que faz tudo com a mão, todas as etapas. Eles compram o tecido, desenham, cortam, costuram. Essa escolha, onde cada coisa e cada momento tem seu devido valor, é uma ideia que ajuda muito na hora de fazer. Na hora de andar de skate também.

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